Tráfico de Livros


- Nossa mãe! O que eu faço para ler alguma coisa nesse país?
-Olha minha filha, você sabe que é proibida a entrada de livros aqui né? Não podemos fazer nada, quando você fizer 17, pode ser que viaje para um país livre e leia, mas antes disso, apenas os livros didáticos.
-Mas mãe... Eu quero viajar agora!
-Você só tem 15 anos, não pode sair do país. São as leis.
-Leis, leis, leis... só existe isso aqui, nada de benefícios!
-Você sabe que o presidente Regathci não vai mudar isso, e muito menos o filho dele...
-É verdade, meu maior sonho é mudar a política desse país, mas como é proibido ler, isso vai ser quase impossível...
-Filha não pense assim, sempre há uma saída, você sabe, principalmente com essa força de vontade que você tem, converse com suas colegas da escola, vê se alguma delas pode te ajudar.
-Já fiz isso mãe, mas sabe o que elas fizeram? Me denunciaram para a diretoria por traição ao presidente, e eu quase fui expulsa da escola, graças à Julichet eu estou estudando, ela disse que tudo era mentira, e o resto se resolveu, ela é a única que me entende mãe, parece um anjo.
-Invista nisso filha!
-No que mãe? 
-Na amizade dessa menina, pode ser que te ajude a fazer alguma coisa.
-Isso mesmo mãe, vou pra casa dela, volto pro jantar!
-Vai com Deus querida, não esqueça que vocês tem que conversar na casa dela, e não fora!
-Pode deixar!
-Oi Ju, vim aqui pra ver se você pode me ajudar num projeto, posso entrar?
-Claro que pode!
-Bom, já que não podemos ter livros, e nem sair do país, eu queria resolver isso, você sabe algum jeito?
-Olha, já que você é minha amiga, eu vou falar, meu pai tem um jeito de sair e entrar sem passar pelos guardas.
-Que jeito?
-Um túnel por baixo da fronteira que sai da minha casa, e leva até o Kijukite do Oeste, a gente podia usar, mas porque você quer sair daqui?
-Porque eu quero ler alguma coisa, e saindo daqui, eu consigo denunciar o governador para a ONU de algum país, pelos crimes que ele comete, eu não quero viver num país onde se come e bebe só o que o ditador mandar!
-Olha, nisso você está certa, vou ver com o meu pai se a gente pode usar o túnel, e daí a gente planeja tudo.
-Nossa!
-Que foi?!
-Já são oito e meia, não posso mais voltar pra casa, seu pai não tem nenhum túnel pra lá?
-Não, mas você pode dormir aqui, no meu quarto tem bastante espaço, eu jogo um colchão no chão, um cobertor lá e você dorme.
-Ok, tudo bem, mas e a minha mãe? Ela vai ficar preocupada!
-Minha mãe liga pra ela, depois das 9 o telefone é liberado.
-Ah, ainda bem, ela vai achar que eu fui presa, com essas ideias malucas que eu tenho.
-Mãe da Juli, liga pra minha quando der nove horas?!
-Ah, ligo sim, é pra avisar que você está aqui?
-É, ela deve estar preocupada, eu vou ter que dormir aqui mesmo.
-Fala pra Ju montar o colchão reserva no quarto!
-Já estamos indo, boa noite!
Lá em cima, no quarto de Julichet...
-Ju, já sei, nós vamos atravessar a fronteira duas vezes, e alugar uns livros, e enquanto isso, nós vamos vendo como é o povo de lá, depois nós nos rebelamos contra o governador, e como somos menores de 18 anos, seremos expulsas do país, assim podemos viajar pra fora, qualquer lugar, e construir um cômodo subterrâneo, para colocar livros, e as crianças irem lá para ler, e com internet, na parte do Oeste, e as crianças virão para cá, e a gente não pode entrar, por isso vai ser na parte do Oeste da fronteira. Daí, enquanto a biblioteca funciona, nós vamos e denunciamos o governador pra ONU, e trabalhamos no outro país pra ganhar dinheiro para a biblioteca.
-Mas não é mais fácil ir pra fora pelo túnel do que assim?
-É, mas se a gente ficar 24 horas fora sem o consentimento do governador, nossa mãe pode ser presa e pegar prisão perpétua ou pena de morte se a gente não aparecer, e eu não quero colocá-las nessa.
-Ah, muito menos eu, mas isso vai ser difícil né?
-Olha, depois que fizermos 18, vamos poder ficar aqui por até 6 horas por dia, e enquanto isso, nossa mãe pode sair do país, ou nos ver pela sua casa, ou no túnel, vai dar tudo certo.
-Bom, já que você falou, está falado, espero que tenha pensado bem nisso.
-Pra falar a verdade eu pensei agora em tudo, veio na cabeça.
-Bom, enquanto a senhorita criativa pensa, eu vou tentar dormir, amanhã tem aula, e não posso faltar.
-Nem eu! Boa noite.
-Boa noite.
De manhã, no dia seguinte, na escola...
-Bom dia alunos!
-Bom dia professora...
-Hoje nós vamos aprender sobre as leis do nosso país, vocês já devem saber, como bons cidadãos, mas eu tenho que dizer que foi criada uma nova.
-Qual professora?
-Olá Miriam! Você sempre esteve tão sonhadora, e acordou hoje!?
-É...É que eu gosto de leis.
-Muito bom saber que alguém ache as leis justas.
-Mas, eu não disse isso...
-Bom, esquece! Você quer saber a nova lei não é?
-Quero sim! Diga!
-Bom, é que agora foi permitida a entrada de estrangeiros no país, mas com as revistas de sempre, para que não haja um contrabando de objetos proibidos.
-Você quis dizer livros né professora?
-Primeiramente, senhora, e depois, sim, são livros!
-Ah, sabia...
Triiiiiiiiiim!
-Tchau! Nossa aula de hoje acabou!
-Nossa, mas agora era a hora do intervalo, não é?
-Não, hoje é feriado, é o aniversário do governador, todos devemos ir para nossas casas jejuar por ele.
-Sim, tudo bem, tchau.
-Julichet, você acha que eu devo jejuar mesmo?
-Eu não vou, se você quiser, faz qualquer coisa, eu já estou acostumada à ditadura, nem sei mais o que devo fazer, mas ficar sem comer, nunca!
-Nem eu!
-Vou pra casa ver se minha mãe vai fazer alguma coisa, beijos!
-Beijos, até amanhã!
Em casa, Miriam percebe que sua mãe não está.
-Mãe? Mããe? Cadê você? Está na cozinha? No quarto? Onde? Ué... Ela não está aqui, e não deixou nenhum recado, ou ela foi no mercado, ou na casa de alguma amiga, mas se ela fosse deixaria algum recado, acho que vou deixar um recadinho aqui, e vou pra casa da Julichet, não gosto de ficar sozinha.
-Oi mãe da Ju, posso entrar?
-Claro! Fique aqui na sala, vou buscar alguma coisa pra comer, a Ju está no banho, já já ela desce.
-Ah, tudo bem.
-Quer bolinhos?
-Quero sim, é de queijo?
-Sim, vou levar um suco também.
-Obrigada.
-Então, o que te trouxe aqui?
-A minha mãe não está em casa, e não deixou recado dizendo onde estava, então eu deixei recado e vim pra cá.
-Ah, a Ju já está descendo!
-Oi Ju!
-Miriam, você por aqui? Não me diga que sua mãe está jejuando e você fugiu?
-Não, não, é que ela não está em casa, e eu vim pra cá.
-Ah, já que você está aqui, porque não fazemos as lições de casa, que não são poucas?
-Isso, boa ideia! Depois vamos e fazemos nossos planos!
-Mi, não se empolgue, minha mãe não sabe, só meu pai, ele prometeu segredo.
-Ah, também, se mais alguém ficar sabendo, podemos ir presos, eu, você e seu pai, nós vamos expulsas e ele vai preso pra sempre.
-É mesmo... Você conseguiu fazer esse exercício?
-Sim, é só somar aqui, e depois subtrair esse resultado com esse número.
-Ah, achei que tinha muito mais coisa pra fazer...
-Não, é fácil...
-Ju! Fala pra Miriam que a mãe dela chegou!
-Ok mãe!
-Miriam, a sua mãe che...
-Ok, já ouvi, vou pra casa agorinha, depois te ligo.
-Ok.
Em casa, Miriam se encontra com sua mãe.
-Oi mãe, que saudade! Onde a senhora foi?
-Fui visitar seu pai.
-Meu pai? Porque não me avisou ontem, eu quero ver ele, estou com tanta saudade!
-Minha filha, infelizmente você não vai ficar muito feliz em vê-lo...
-Por quê? Ele foi preso? Mas se ele está preso não pode receber visitas... O que aconteceu mãe?!
-Filha, ontem seu pai estava voltando de viagem, ele tinha ido pros Estados Unidos, você já sabe né?
-Sim, mas o que tem ele voltar de viagem?
-Bom, daí ele estava na rua da casa dele, e entrou um cara maluco na contra-mão, e bateu no carro dele.
-E-ent-tão, a senhora quer dizer que ele está no hospital?
-É, filha, mas ele não está muito bem não...
-Como mãe? Em coma?
-Não, ele está bem, mas pode ser que pare de andar, ele já não sente as pernas.
-Não! Mas não tem tratamento? Eu não quero perder meu pai!
-Ele não vai morrer filha, disso o médico tem certeza.
-Eu sei mãe, mas ele não vai mais poder vir aqui, e eu só vou poder ir na casa dele de vez em quando, porque não aguento ir até a casa dele a pé, vou ter que pedir carona pra alguém...
-Mas isso é o de menos, ele vai ter que ficar no hospital três meses, pra poder se recuperar das costelas quebradas, e evitar outras complicações.
-Eu não vou aguentar três meses sem ver meu pai, já faz quase um mês que eu não o vejo, vou ficar mais três meses? Não dá!
-Eu sei que é difícil querida, mas você vai ter que sobreviver, vai passar rapidinho, depois você pede pro pai da Julichet se ele te leva quando seu pai melhorar.
-Ótima ideia mãe!
-Quer almoçar?
-Não, obrigada, eu comi na casa da Ju, estou sem fome, depois eu belisco alguma coisa, agora vou ligar pra Ju, posso?
-Pode, mas nada de falar coisas muito pessoais.
-Ok, nada que ofenda o ditador.
-Isso mesmo!
-Ih mãe, a Ju ligou, nem vou precisar gastar meus dedinhos...
-Atende!
-Oi Ju!
-Oi Miriam, como vai? Conseguiu descobrir porquê sua mãe sumiu um pouco?
-Consegui sim, infelizmente.
-Por quê?
-Ah Ju, meu pai não vai mais poder andar.
-Não acredito! Ele era tão ativo!
-É, ele amava correr, fazer caminhada, andar de bicicleta, e jogar futebol com os amigos.
-Verdade!
-Ué... Mas como você conhece meu pai se vocês nem são vizinhos, e nunca se viram?
-Ah, na minha antiga casa, dava de fundo na casa dele, eu via ele quase todo dia indo trabalhar.
-É verdade, ele sai na hora que a gente vai pra escola, por isso não pode me trazer pra escola.
-Nossa, sabe que eu nunca tinha percebido isso?!
-Mas, o que tem a ver, você e o horário do meu pai?
-Ah, nada não, você vai poder visitá-lo no hospital?
-Infelizmente não, ele está no hospital masculino, e eu só posso entrar no feminino, lembra?
-Claro, infelizmente, mas como sua mãe foi visitar?
-Ela se vestiu de homem, pra poder entrar, ela ainda gosta dele, mas não assume, sabe?
-Ah, falando de pais, meu pai disse que é só a gente fazer todo o plano e a gente já pode usar o túnel.
-Eba! O que você acha de ir depois de amanhã? A gente fala com nossas mães, e já vai arrumando as coisas, nós não vamos comprar nada lá, vamos andar, e como o seu pai trabalha lá, eu lembro que é dia de folga, mas ele poderia ir, e ser nosso "guia turístico", o que acha?
-Muito bom, vou perguntar pra ele se pode ser assim, já são seis e meia, vão bloquear o telefone, beijos, até amanhã de manhã!
-Bom, beijos, tchau, amanhã me dê a resposta.
No dia seguinte.
-Oi Ju, e o seu pai, tudo certo?
-Tudinho, hoje, às 3 da tarde, voltamos às 5.
-Perfeito!
-Você vai pra escola?
-Não, só vim pra sua casa falar sobre isso, vou ficar em casa, minha mãe vai sair, e eu preciso arrumar minhas coisas.
-Não precisa arrumar muitas coisas pra ir, só dinheiro mesmo.
-Eu sei, é que meu quarto estava uma bagunça, daí como hoje a professora não vai, não é obrigatório ir, e eu vou arrumar meu quarto.
-Ah, eu vou, a filha da diretora disse que hoje ela ia revelar um segredo de cada professora, não sei qual, então a curiosidade me arrastou até a escola.
-Sei...
-Bom, vou indo pra não me atrasar, beijos!
-Beijos, depois me conta!
Em casa, Miriam arruma seu quarto, quando o pai de Julichet e ela vão lá para buscá-la e atravessar o túnel.
-Nossa, mas já?
-É, querida, 3 horas da tarde, foi o combinado, vamos lá?
-Vamos, já falei pra minha mãe, não podemos passar das 5.
-Não, tudo bem, é o horário marcado.
-Cuidado ao atravessar a rua menina!
-Nossa, nem percebi, qual seu nome, pai da Ju?
-Robson, seu guia turístico.
-Pai, nada de palhaçadas...
-Ah, mas foi legal né Mi?
-Foi, alivia o medo.
-Ah, mas não tem perigo, eu atravesso quase todo dia isso aqui.
-Nossa, mas é fino, ein pai?
-É, cabem duas pessoas magras de lado, e um gordo como eu sozinho.
-Paai!
-Deixa ele Ju, já chegamos!
-Meninas, sejam bem-vindas ao Kijukite do Oeste!
-Robson, meu guia turístico, que país lindo!
-Não acredito, tem muitas coisas aqui, que a gente só imaginava!
-Meninas, essa é só a entrada de uma cidade, imaginem o resto!
-Ah pai, não quero entrar muito não, depois a gente se atrasa e já era...
-Concordo com a Ju, seu Robson.
-Então vamos lá! Vocês querem ver a biblioteca municipal?
-Ah, eu quero, e você Ju?
-Quero também, será que a gente vai poder levar algum livro?
-Não sei filha, a gente conversa com a moça da biblioteca, mas se ela deixar, vocês vão ter que esconder os livros, não quero perder os livros para os guardas do governo.
-Não, tudo bem, depois a gente te entrega e você entrega, tudo bem, Rob?
-Haha, gostei do apelido pro meu pai, mas a biblioteca está bem aqui na frente, vamos entrar?
-Roobson! São milhares e milhares de livros! Quero ler todos!
-Se acalme Miriam, vamos ver se a moça deixa você levar pelo menos 2.
-Boa ideia Ju, vamos ver com aquela ali!
-Olá, posso ajudar?
-Claro que pode, eu quero os 2 livros mais legais que você tem!
-Claro mocinha, e você?
-Oi, meu nome é Julichet...
-Ju, escolhe logo!
-Tá bom pai. Eu quero os outros 2 livros mais legais.
-Em nome de quem?
-Robson. Eu trabalho nesse prédio aqui do lado, já tenho conta no sistema.
-Ah, achei aqui, então é um Dom Quixote e um O guarani pra mocinha empolgada, e um Alice no País das Maravilhas e um Odisseia pra Julichet, certo?
-Isso!
-Obrigado moça, posso te devolver quando?
-Olha senhor Robson, até 4 dias sem multa, passando disso, vai tendo multa.
-Tudo bem, depois de amanhã eu trago, e vocês tratem de fazer o combinado meninas!
-Tudo bem Rob!
-Ok pai!
-Vamos voltar, já são quatro e meia, o que vocês acham?
-Acho que eu já consegui uma grande vitória, que foram esses livros, pra mim já tá muito bom.
-Eu também, vamos antes que fechem a fronteira.
-O túnel começa muito longe da fronteira né Rob?
-Eu o fiz assim estrategicamente Mi, pra que nenhum guarda veja.
-Entendi, entrando!
-Mi, me espera, meu pai tem que ir atrás de mim, e você tem que ter cuidado, lembra?
-Lembro... Vem cá então, cuidadosa.
-Chega de papo, já estamos no fim do túnel, entrem em casa, vou fechar lá na entrada.
-Tá bom, tchau Rob, já vou pra casa!
-Tchau Mi!
-Tchau Ju!
-Tchau Miriam, até amanhã, depois você me fala o que achou dos livros, e eu te conto os meus.
-Ótima ideia, até amanhã!
-Oi filha, como foi lá?
-Oi mãe! Nossa, é muito grande, com muitas casas, muito comércio, muita gente, muitos livros, muita coisa, não sei nem como começar, peguei esses aqui, vou devolver depois que eu ler para o Rob.
-Quem é Rob?
-O pai da Ju, o nome dele é Robson, daí ficou Rob.
-Quando vocês voltam pra lá?
-Acho que semana que vem, e daí a gente já vá começar a comprar livros, vou guardar o dinheiro que eu ganho com as vendas na escola para comprar, e depois vamos esconder tudo no túnel.
-Vocês tem certeza se isso é seguro, não vai dar problema?
-Não mãe, tudo certo, o túnel é bem longe da fronteira, ninguém nem desconfia da existência dele, e mesmo se der problema, o pai da Ju tem cidadania do outro Kijukite e nós não vamos presas, então não vai ser nada grave.
-Ah, então... Quer jantar?
-Claro, essa aventura me deu fome! O que temos hoje?
-Fiz lasanha.
-Huum, amo lasanha!
-Vou por um pedaço bem grande para você, tudo bem?
-Pode por, eu aguento.
-Come aí, vou pra sala e já volto.
-Ok.
-Filha, filha! Vem cá!
-Mãe, estou jantando... Pode ser depois?
-Não filha, tem que ser agora!
-Tá bom mãe, estou aqui, o que aconteceu?
-Recebi um torpedo da sua tia!
-Tia? Meu pai só tem irmãos homens.
-Isso é verdade, os pais dele não queriam perder nenhuma filha, mas eu tenho uma irmã.
-Como assim, uma irmã mais nova né?
-Não, mais velha, 3 anos mais velha que eu. É uma longa história... No nosso país as pessoas são consideradas maiores de idade aos 17 anos. E quando um casal tem sua primeira filha, filhos não contam, ela está prometida ao governador, mas se ela for "imperfeita", ou seja, se ela tiver algum problema físico, ela não precisa ser prometida. Quando ela é prometida, aos 17 anos ela é retirada da casa de seus pais um dia depois do aniversário, e vai morar na casa das esposas, que é um prédio, cheio de garotas selecionadas, o resto da vida elas ficam naquele prédio, se tiverem um filho, e for menino, elas saem quando ele fizer 17 anos, mas se tiver uma menina, ou não tiver filhos, ela não sai nunca, e isso acontece ao longo das gerações. A minha irmã foi prometida ao governador e teve um filho com ele, esse garoto tem 17 anos, é o segundo na linhagem real, e sua tia está livre agora.
-Mãe, eu não acredito nesse absurdo! Mas eu tenho duas perguntas, eu tenho um primo que pode ser governador um dia, eu posso ter contato com ele? E eu preciso ir para a casa das esposas? Porque tenho 15 anos, sou a primeira filha e pelo que eu saiba, não sou imperfeita fisicamente.
-Filha, seu primo já é maior de idade, ele pode sim ter contato com os "súditos", ele mora do outro lado da cidade, qualquer dia eu te levo para visitá-lo, e você não vai para a casa das esposas, não porque é imperfeita fisicamente, mas porque não é a primeira filha. Seu pai tem outra filha com outra mulher, e é ela quem vai ser entregue ao governador.
-Quem é essa filha mãe? Quero conhecer minha irmã!
-Filha, seu pai nunca me disse, mas eu sei que ela é apenas um ou dois meses mais velha que você, e estuda na sua escola.
-Ah mãe, eu queria saber, porque eu quero conhecê-la antes dela ir para a casa das esposas.
-Pergunte ao seu pai quando conseguir falar com ele.
-É isso que eu vou fazer, semana que vem eu vou atravessar com a Ju de novo, daí eu peço carona e vou conversar com meu pai.
-Filha, não vai dar problema essa travessia de vocês?
-Não mãe, dessa vez eu vou levar dinheiro e vou comprar livros, eu e a Ju já combinamos, eu preciso ir para a casa dela agora.
-Tchau filha!
-Tchau mãe.
-Miriam, quer entrar?
-Quero sim Ju, é ruim conversar aqui fora.
-Ah, verdade.
-Ju, você vai ser entregue ao governador?
-Ai Mi, vou sim, infelizmente, sou a mais velha, e preciso ir, mas você vai dois meses depois de mim, não vai?
-Não Ju, eu tenho uma irmã, ela é dois meses mais velha que eu, igual você! 
-Mas eu nunca vi essa sua irmã.
-Nem eu, ela é só por parte de pai, e ele nunca falou sobre ela, acho que ela vive com a mãe e um pai de criação.
-Nossa, deve ser horrível perder o contato com o pai né?
-Muito ruim, eu já estou mal porque vou ficar uns meses sem vê-lo, imagina a vida toda!
-É verdade, mas porque você perguntou isso?
-Ah, porque eu descobri que tinha uma tia minha, irmã da minha mãe, que foi entregue, teve um filho do governador, e agora ela está livre, porque o filho já fez 17 anos.
-Então você tem um primo filho do governador?
-É, e ele é o segundo na linhagem, tem 50% de probabilidade de chegar ao governo, eu quero conversar com ele, para ver se posso ajudar a mudar algo aqui.
-Miriam, você tem um presente em suas mãos, um adolescente, seu primo, que ainda pode ser muito legal e ter as mesmas ideias que você, porque você não liga pra ele?
-Acho que depois da nossa travessia eu vou até a casa dele, eu nunca o vi, prefiro que o primeiro contato seja cara a cara.
-É, é melhor mesmo, você vai mesmo semana que vem?
-Vou, claro que vou, preciso comprar livros dessa vez!
-Tomem cuidado meninas, nada de encrenca!
-Mãe, nem vi você aqui!
-Ju, ela já sabe?
-Ah, e como sei... Eu acho muito boa essa ideia de vocês, mas é meio arriscado né?
-Não acho, temos segurança o suficiente.
-Mi, acho melhor você voltar, já está ficando tarde.
-É mesmo, obrigado por me lembrar Ju, tchau!
Uma semana depois...
-Oi Ju, já são 14:00, vamos?
-Claro. Paaiê! A Miriam está aqui, vamos lá?
-Vamos filhota, oi Mi!
-Oi Rob!
-Entra querida.
-Ah, vamos lá, a Ju primeiro, depois a Miriam, depois eu, já está aberto.
-Nossa Rob, onde eu posso comprar livros por aqui?
-Acho que ali naquela banca tem uns bem legais.
-Vamos lá Miriam?
-Vamos, eu trouxe um pouquinho de dinheiro, vai dar para uns 3 ou 4 livros, é o que eu consigo carregar mesmo.
-Filha, eu tenho aqui, escolhe os que você quer, eu pago.
-Quero esses aqui Rob, vou ali pagar, espero vocês na porta.
-Vamos filha, já escolheu?
-Sim pai, quero esses 3, mas eu peguei um pouco com a mãe, vou comprar com esse dinheiro.
-Tudo bem, estou ali na porta.
-Vamos Ju?
-Vamos, já compramos, nada mais a fazer aqui.
-Mas foi tão rápido meninas, não querem passear?
-Não pai, tenho lição de casa pra fazer, e ainda tenho que guardar isso aqui.
-É Rob, eu também preciso fazer tudo isso.
-Então vamos meninas, entrem aqui, eu vou por último.
-Vamos lá, pai estou tão realizada, por comprar meus primeiro li...
-Ju, Rob, volta! Um guarda! 
-Ah, a gente está na saída externa, ela leva para o terreno baldio atrás da minha casa. Olá senhor guarda. Meninas, fiquem aqui atrás.
-O senhor deve ser o?
-Robson, essa é minha filha, e essa é a amiga dela.
-Oi, meu nome é Julichet.
-O meu é Miriam.
-Vocês devem ser daqui, estou certo?
-Sim, senhor.
-Atravessaram a fronteira pelo túnel e compraram uns livros, eu suponho.
-É, foi isso mesmo.
-Segundo as leis o senhor deveria ser preso e as meninas expulsas, sabia?
-Claro que sim, eu pegaria perpétua ou pena de morte, todo cidadão deve saber disso.
-Pai, estou com medo!
-Eu também, Rob.
-Meninas fiquem tranquilas, eu estou infiltrado aqui, sou um agente, não um guarda, e vim vigiar esse terreno porque já sabia do túnel de vocês, sorte sua que não veio nenhum guarda de verdade. Meu nome é Marcelo.
-Ah, Marcelo, quase que eu morro, e essas meninas estavam aqui morrendo de medo, nós fomos comprar uns livros, e precisamos passar por aqui.
-Não, eu entendo isso, tudo tranquilo, mas você só tem essa saída?
-Não, ele sai na minha casa também, é que nós pegamos a saída errada.
-Oi, meu nome é Miriam, eu preciso ir para casa, sou prima do segundo na linhagem do governo, com licença?
-Oi mocinha, pode passar, quer que eu te leve ao seu primo?
-Por quê?!
-Para conversar com ele, eu falei com ele ontem, ele parece muito aberto, acho que poderá te ajudar. O irmão dele, o primeiro na linhagem, foi para a guerra, e está ferido, vá consolá-lo.
-Ótima ideia, tchau Ju, tchau Rob!
-Tchau Miriam!
-Tchau Mi, boa sorte!
Na casa de Giovane, o primo de Miriam...
-Olá, eu gostaria de falar com o filho do governador, posso entrar?
-Sou eu mesmo, e você, quem é?
-Eu sou a Miriam, sua prima.
-Prima? Bom, minha mãe me contou a história de uma irmã dela que teve uma filha chamada Miriam, acho que deve ser você mesma.
-É, sou eu, qual seu nome?
-Eu sou o Giovane, pode entrar, sentá aqui no sofá, quer comer alguma coisa?
-Não, obrigada, eu queria conversar mesmo.
-Sobre o que?
-Bom, eu ouvi que você é muito aberto a novas ideias, então queria ver se tem alguma possibilidade de você receber sugestões.
-Sim, eu sou bem aberto a essas coisas, para ser sincero, eu não concordo com a maioria das coisas que meu pai fala...
-Ah, mas você concorda com esse negócio de entregar mulheres ao governador?
-Sinceramente? Não, minha mãe foi entregue e perdeu 18 anos da vida dela, só porque meu pai queria ter muitos herdeiros, eu acho que o governador tem que casar, e não pegar mulheres em suas casas, como se fossem escravas...
-Ah, é que eu queria que isso mudasse em até 2 anos.
-Porque? Não me diga que você vai...
-Não, eu tenho uma irmã, dois meses mais velha, mas eu não a conheço, é que a minha melhor amiga vai ter que ir, se eu fosse com ela, tudo bem, mas como eu não sei se vou voltar a vê-la, não queria que ela fosse.
-Eu concordo com você, são adolescentes na flor da idade, não merecem ir.
-Então, será que você tem alguma influência sobre seu pai?
-Na verdade não, se eu fosse o primogênito eu seria um dos conselheiros, mas não sou, quando meu irmão tomar posse eu entro para o conselho, e posso ajudar, mas agora não, vai demorar mais muito tempo.
-Seu pai sai quando?
-Ou se ele morrer, ou se renunciar, mas as duas coisas são difíceis, ele me disse que só renunciaria se fosse obrigado, porque ele não quer guerra.
-Mas seu irmão não foi para a guerra?
-Foi, mas nós estamos apoiando os nossos países vizinhos, a guerra não é contra nós na verdade, o problema seria uma guerra do povo contra o governo.
-Agora eu entendi, mas então se nós tivermos alguns protestos, ele renunciaria?
-Sim, mas porque você quer a renúncia dele?
-Na verdade não é isso, eu queria umas leis mais justas, por que não podemos ler aqui?
-Essa é uma das perguntas que meu pai nunca me respondeu, mas eu ouvi uma história que é mais ou menos assim: Começaram a traficar drogas no meio de livros encapados, daí meu pai começou a revistar os livros, mas como era muito desgastante, ele proibiu os livros.
-É, agora eu entendo, mas com isso ele proíbe crianças e adolescentes de adquirir conhecimento, histórias novas, e como não podemos sair do país para ler nada, fica mais difícil.
-Então, essa parte da fronteira eu estou trabalhando um projeto, mas em relação aos livros, será uma grande mudança, por isso estou tentando fazer aos poucos, primeiro liberamos a fronteira, depois paramos de tomar meninas, depois nós vamos mudando mais coisas.
-Mas será que vamos conseguir alguma coisa antes da Ju ir para a casa das esposas?
-Não sei, se eu conseguisse conversar com meu irmão, eu tentaria convencê-lo a adiar a data, para sei lá, 19 anos, talvez antes da sua amiga completar 19 anos eu consigo convencê-los a esquecer essa ideia.
A empregada de Giovane entra na sala:
-Seu Giovane, telefone.
-Ah, sim Jaque, já estou indo. Miriam, espera um pouco?
-Claro, fique a vontade!
5 minutos depois...
-O que aconteceu?
-Miriam, meu irmão não poderá mais assumir o governo.
-Por quê? O que aconteceu?
-Ele foi atingido por um tiro, está paraplégico, e corre risco de vida, está sendo transferido para o nosso hospital oficial daqui, mas o avião demora, e meu pai está desesperado, foi ele que me ligou.
-Mas se ele ficar bem ele não pode mais ser governador?
-Não, porque o governador não pode ser paraplégico, tetraplégico, ou ter alguma dificuldade motora. Nem uma mão amputada pode ter.
-Nossa, que ruim! Mas isso significa que você é o sucessor do seu pai agora?
-Sim, mas isso é o que menos importa, estou muito triste pelo meu irmão, tenho que visitá-lo.
-Claro, é seu dever, eu vou indo para minha casa, depois a gente se fala mais, aqui está o telefone da minha casa, me liga.
-Pode deixar que eu te ligo assim que puder, tchau!
Chegando em casa, Miriam conta as novidades para sua mãe.
-Oi mãe!
-Filha, onde você se meteu?!
-Mãe, você nem imagina... Fomos lá, compramos livros, e na volta encontramos um guarda na saída do túnel.
-Mas então vocês deveriam ser presas!
-O guarda era um agente infiltrado, ele nos liberou, daí eu fui visitar o Giovane, o meu primo filho do governador. O irmão dele está na guerra e agora está paraplégico, ele é o sucessor do governo agora, eu acabei de voltar da casa dele. Preciso guardar esses livros.
-Não acredito que você foi lá ver seu primo, e você vai voltar lá?
-Ah, ele combinou que assim que desse ele ligava, e eu também tenho o número dele aqui, então a gente vai se falar pelo telefone, e ele tem a cabeça aberta a novas opiniões, e disse que está disposto a propor mudanças aqui.
-Agora ele é um conselheiro né?
-Claro! E depois que o episódio do irmão dele passar, eu vou ver se podemos conversar sobre isso.
-Filha, estou muito orgulhosa de você! Acho que nessas férias você vai ajudar esse país a mudar!
-Tomara, mãe. Eu quero muito que isso aconteça, mas antes preciso dormir.
-Boa noite!
Durante o mês que se passou, Miriam não recebeu nenhuma ligação do primo, e quando ligava, o telefone dele não atendia, até que no primeiro dia de aulas ela leu um cartaz:
-"Férias estendidas?!"
-É isso mesmo Mi, pelo que li aqui no final é por luto.
-LUTO? Ju, deixa eu ler isso aqui, dá licença!
-Tudo bem, pode ler.
-Não acredito, o luto é pelo filho do governador!
-Qual deles?
-O mais velho, aquele que ficou paraplégico.
-Deve ser por isso que seu primo não te ligava então.
-É... O irmão dele deve ter piorado e ele deve ter se mudado para perto do hospital.
-É mesmo... Do que será que ele morreu?
-Não sei, vou falar com a minha mãe, pra falar com a minha tia, talvez ela saiba de alguma coisa, quer vir comigo para a minha casa?
-Sim, eu nunca fui lá, daí eu ligo pra minha mãe.
Na casa de Miriam, Julichet já avisa sua mãe, enquanto Miriam e sua mãe conversam sobre as "férias estendidas".
-Mãe, cheguei na escola e tinha um cartaz falando que nossas férias tinham sido estendidas.
-Falei com a sua tia e ela me disse isso, foi por causa do filho do governador.
-É, ele morreu, estava paraplégico e morreu, mas ele morreu do que exatamente?
-Não sei, nem sua tia soube explicar, mas sabemos que o governador declarou luto de um mês, e toda família dele, assim como os conselheiros, está numa cidadezinha.
-Ah, eu queria falar com meu primo, ele deve estar precisando de alguém pra conversar.
-É mesmo, mas ninguém sabe onde é essa cidade, talvez daqui uma semana eles voltem.
-Ah mãe, a Ju veio aqui, ela já falou com a mãe dela e tudo bem ela ficar aqui, pode ser?
-Claro! Oi Ju!
-Oi mãe da Miriam!
-Ju, você parece muito com a Miriam!
-Eu já ouvi isso, todo mundo fala isso!
-Mãe, você não acha que ela parece mais com o meu pai do que com você?
-Mi! Minha mãe me disse que meu pai de criação não é meu pai verdadeiro, será que sou sua irmã?
-Não sei Ju, vou ver com o pai da Mi se ele conhece sua mãe.
-Não mãe, é mais fácil atravessar a rua e falar com a mãe da Ju.
-Apoio a ideia Miriam, vamos pra minha casa?
-Vamos filha?
-Ah, eu gostaria de saber se você é minha irmã.
Elas chegam na casa de Julichet.
-Olá, desculpe incomodar. Sou a mãe da Miriam, e queria tirar uma dúvida das meninas.
-Claro, sentem-se!
-Mãe, eu pergunto. Quem é meu pai?
-Como assim filha?
-Olha, eu e a Ju somos muito parecidas, e gostaríamos de saber se somos irmãs, porque meu pai nunca se casou, e você disse que a Ju não é filha natural do Rob, então ela pode ser minha irmã, ela é?
-Para lembrar, o nome do pai da Miriam é Hugo.
-Ah, obrigado por me lembrar o nome dele, e é sim ele o pai da Ju.
-Não acredito mãe! Sou irmã da minha melhor amiga! Por isso eu ia para a casa das esposas e ela não! Mãe, por que você nunca me contou que meu pai era nosso vizinho? Eu seria tão feliz de dar um abraço nele como pai!
-Minha filha, depois que eu me casei com o Robson, nós combinamos de te contar assim que estivesse na hora certa, mas parece que não chegou essa hora certa, e você acabou conhecendo a Miriam, então tudo acabou sendo assim.
-A Ju é minha irmã?! Não acredito! Vou falar com o meu primo, quem sabe ele, como novo conselheiro, não pode nos ajudar a evitar isso?
-Pode ser Mi, eu não quero ir para a casa das esposas, principalmente agora, que eu quero viver como irmã da Miriam.
-Filha, eu acho que você deveria visitar seu pai.
-Ah, o Hugo está sem probabilidade de ser visitado durante um tempo, ele está paraplégico.
-É mesmo! A Mi me disse que ele tinha ficado paraplégico, vou ter que ficar um tempo sem ver meu pai...
-Mãe, vamos pra casa?
-Vamos, Mi.
No dia seguinte, Miriam e Julichet vão à casa de Giovane.
-Bom dia, senhoritas!
-Bom dia, o Giovane está?
-Quem gostaria de falar com ele?
-Diga a ele que sou sua prima, a Miriam.
-Já vou chamá-lo.
-Miriam! Quanto tempo!
-Oi primo, tudo bem?
-Estou superando a perda do meu irmão, mas estou melhor sim, e essa moça bonita, quem é?
-Eu sou a Julichet, ami...irmã da Miriam.
-Irmã?! Mas você não tinha nenhuma irmã, Miriam!
-É que ontem eu descobri que a Ju era minha irmã por parte de pai, é ela que vai para a casa das esposas daqui dois anos.
-Ah, vamos entrar!
-Com licença, você é sucessor ao governo agora?
-Sim, Julichet, sou sim. E meu pai disse que não pretende ficar mais muito tempo, pois precisa ter mais tempo "para ele", portanto em poucos anos eu tomarei posse.
-"Poucos anos" não é suficiente para evitar que ela vá, priminho!
-Mas eu conversei muito com ele esses dias que estivemos fora, e ele me disse que eu posso começar a ir tomando posse de pequenas coisas. A primeira coisa que eu pretendo tomar posse é a liderança da criação de leis. Vou mudar muitas, como a parte dos jejuns, a pena de morte, a proibição de livros, e a busca de moças em suas casas, aos 17 anos, para serem "esposas", eu pretendo ter apenas uma esposa.
-Awn que fofo priminho, eu vou beber uma água logo ali, e já volto.
-Ok, mas volte logo, Mi!
-Então Ju, você e a Miriam se conheceram quando?
-Não faz muito tempo, acho que foi esse ano, nos conhecemos na escola, e agora descobrimos que somos irmãs por parte de pai.
-Então você não é minha prima?
-Não, eu não tenho parentesco com a mãe da Miriam.
-Ah...
-Voltei gente!
-Oi Miriam! Estávamos conversando aqui, e descobri que a Ju não tem parentesco nenhum comigo né? 
-Não, querido primo, eu te disse, ela é minha irmã por parte de pai, PAI.
-Já entendi, vocês querem almoçar? 
-Não, obrigado, você quer Ju?
-Ãn? Não, não quero.
-Então já vamos, beijo primo!
-Beijo Mi, tchau Ju!
-Tchau!
Já na volta...
-Ju, não precisa ficar com cara de bobona, viu?
-Que? Quem está com cara de bobona?
-Você! Desde que viu o Giovane ficou babando no menino, seja mais discreta, acho que todos pudemos ver que você está a fim dele, mas não precisa escancarar mais...
-Que isso Miriam! Quem disse isso?
-Sua cara, seus olhos brilhantes!
-Foco Miriam, foco! É disso que precisamos para continuar com nosso túnel.
-Shiiiu! Mas falando nisso, seu pai já foi lá ver como está?
-Sim, ele disse que só falta a instalação de luz, e então já podemos começar a comprar as coisas.
-Muito bom isso, é incrível como podemos fazer tanta coisa em um mês.
-Podemos... Aham... Foram os amigos do meu pai que fizeram né...
-É, mas o podemos incluía a raça humana.
-Entendi agora.
-Vamos pegar esse ônibus aqui, preciso almoçar.
Já em casa, Miriam e Julichet conversam sobre o projeto.
-Ju, você acha que devemos começar com quantos livros?
-Acho que devemos começar com uns 4 ou 5, porque vamos convidar pouca gente, e então vamos comprando mais.
-Meu pai chegou! Vou falar com ele, para ver quando podemos atravessar.
-Tudo bem, vou lá falar com o Rob tamb...
-Oi meninas!
-Oi pai!
-Oi Rob!
-Prontas para atravessar de novo?
-Mas já?
-Claro, filhinha! Vamos adiantar, porque não quero demorar muito, tem que ser algo rápido.
-Já instalaram tudo lá, Rob?
-Claro Miriam! Onde vocês estavam hoje de manhã?
-Na casa do Giovane, primo da Miriam.
-E ele é legal?
-Sim, muito legal, pai! Ele é o sucessor do governo!
-Que legal! Vamos lá!
-Vamos!
No túnel, já transformado em "semi-biblioteca", com luz elétrica, cabos de internet, mesas, cadeiras e estantes, as meninas ficaram assustadas, afinal, não é todo dia que se vê uma construção subterrânea.
-Mas pai, isso é um paraíso! Só faltam os livros, os computadores e as pessoas!
-Vamos comprar alguns?
-Não meninas, não vamos hoje não. Não podemos comprar mais nada.
-Ah pai, por que?
-Deixa, Rob, precisamos começar logo.
-Não podemos comprar mais nada porque eu já comprei tudo, chega amanhã, e depois de amanhã vocês vêm aqui para aprovar e logo, logo, nós abrimos.
-Não acredito! - gritaram as duas em coro, abraçando o "melhor pai do mundo" e "melhor pai-de-amiga do mundo".
-Então, já que está tudo tão bem assim, vamos pra casa, que eu quero conhecer esse seu primo, Miriam.
-Ah pai, ele é tão legal, né Mi? Tão simpático... - derreteu-se Julichet.
-Claro! - disse Miriam, dando um toque para que Julichet se controlasse. A amiga estava visivelmente apaixonada pelo seu primo.
-Humm, você está bem, filha?
-Claro, pai, muito bem, por que?
-Por nada não. Mi, quando chegarmos, você liga pro seu primo?
-Pra quê?
-Para ver se podemos ir na casa dele, oras!
-Mas pai, no primo da Miriam, não tem isso, é só chegar.
-Ah, então vamos logo!
Chegaram. Andaram, andaram (Robson não gostava de ônibus), mas enfim chegaram. Era longe, mas Julichet parecia andando nas nuvens. Giovane os recebeu muito alegremente.
-Oi gente! Oi Miriam, oi Ju! E o senhor, qual seu nome?
-Eu sou o Robson, pai da Julichet. - disse ele enfatizando as últimas palavras, até ele percebera que o amor rondava aqueles adolescentes - E você, deve ser o Giovane, certo?
-Claro! Entrem, por favor! - disse ele dando espaço.
Lá dentro eles conversaram sobre os planos do sucessor ao governo, os planos de tornar o país uma democracia, os planos de mudar as leis, os planos das meninas, os planos de Robson, que parecia tentar analisar o menino com os olhos, e os planos de Marcela, a nova empregada da casa, que se intrometera na conversa.
-Gostamos muito do papo, mas temos que ir. Vamos meninas? - cortou Robson.
-Vamos Rob, já está tarde mesmo.
-Vamos... Tchau Gi! - disse Julichet, dando um beijo bem apertado na bochecha do primo de Miriam.
-Tchau meninas! - disseram Giovane e Marcela (a intrometida), em coro.
Miriam foi para sua casa, para finalmente dormir. Amanhã ela ficaria esperando a chegada dos "apetrechos", assim chamados por Robson, de seu cômodo subterrâneo, para poder ir lá no próximo dia. Já Julichet e seu pai entraram em casa mudos. Ela foi ao seu quarto, e ele foi conversar com a esposa.
-Sabe, a Ju está estranha esses dias.
-Estranha, como? Você quis dizer apaixonada?
-Apaixonada?! Não! Quer dizer, acho que não... Não sei, ela e esse tal de Giovane estão muito próximos...
-É, querido Robson, sua filha não tem mais 8 anos, ela tem 15, quin-ze! Está na hora de ter amores, paqueras, aceite isso.
-Não, não dá para aceitar assim, vou pensar amanhã. Boa noite.
-Boa noite.
No dia seguinte, tudo ocorreu como o esperado. Durante a manhã, chegaram os materiais e aparelhos. Durante a tarde, os trabalhadores instalaram e organizaram tudo, com a fiscalização de Robson, claro! E de noite ele ficou sozinho lá, admirando o serviço feito e pensando no possível amor de sua filha por Giovane, será que é verdade? Foi um dia cansativo para aquele pai coruja.
Outro dia. As meninas estavam ansiosas para ver o resultado da nova biblioteca. Chegaram, finalmente ao cômodo, e se assustaram com tamanha criatividade humana.
-Uma estante em forma de livro?! Não pai, isso não é possível, eu não estou vendo isso!
-E eu não estou vendo esses computadores lindos, melhores que o meu, não estou!
-Sim meninas, vocês estão vendo tudo isso, e tudo isso foi pensado e planejado por mim, podem agradecer!
-Eu ia até agradecer pai, mas depois dessa demonstração de eu-sou-convencido, desisti.
-Desisti também, Rob querido. Mas mesmo assim, ficou lindo!
-Ha, há! Muito engraçadas vocês!
-Quando começamos?
-Amanhã, se quiserem.
-AMANHÃ? Não pode ser, Rob, é muito incrível.
-Por mim, tudo bem.
-E você, Miriam, vai amarelar?
-Não, Rob. Vamos em frente. Esse é meu sonho!
-Então vão pra casa, que amanhã começa. Mas vamos começar pelos seus primos, Ju. Seus tios sabem disso tudo e não vão implicar.
-Tudo bem. Tchau Rob!
-Vamos pra casa, pai?
-Vamos, filha.
Um, dois, quatro, dez, vinte dias se passaram, e a nova biblioteca do bairro, da cidade, do país, estava indo de bem a melhor, ou melhor, estava muito bem. Nada ali poderia melhorar. Até o primo de Miriam, ele mesmo, Giovane, descobriu e gostou da ideia. Prometeu que ninguém iria descobrir nada, e se descobrissem, ele proibiria de chegar perto da casa de Julichet. Um dia, com a desculpa de uma "visita de negócios", ele foi à casa de Julichet, e soltou a bomba.
-Seu Robson, eu sou meio romântico, e como estou interessado na sua filha, eu gostaria de pedir a mão dela em namoro.
Robson congelou. Julichet olhou para Miriam, e Miriam para Giovane. Ele parecia tranquilo, agia naturalmente, como se aquilo fosse algo do cotidiano de uma família. Um pedido desse tipo, para um pai desse tipo, precisava de muita preparação. Mas Robson foi firme, e jogou a bola para a filha.
-Então filha, o que você acha?
-Eu? E-eu acho que...
-Ela acha uma ótima ideia, Rob! - gritou Miriam.
-É, é isso mesmo! Eu aceito! Mas se o senhor deixar, claro.
-Eu deixo, mas tem algumas condições. Nada de namorico no portão, sempre dentro de casa, da minha casa. Sair, só com meu aval, e não passem das onze e meia da noite.
-Pai!
-Tá bom, meia noite. E não se fala mais nisso.
Os pombinhos vibraram, mas timidamente, olhando nos olhos um do outro. Se abraçaram, pareciam não querer soltar-se nunca mais. Despediram-se do abraço com um beijo. Na bochecha, claro. Já Miriam foi bem mais escandalosa. Ela pulou de alegria, que chegou a assustar Robson, agora familiarizado com a situação. 
-Bom, já são onze horas, eu queria ficar aqui, mas amanhã cedo tenho uma reunião que meu pai convocou de última hora, e não posso dormir tarde, beijos mô. - despediu-se Giovane, recebendo um "tchau, mô" de Julichet e um "tchau" de todos, o mais animado era da prima, Miriam, orgulhosa pela coragem do primo, e curiosa para saber o que seria discutido naquela reunião.
-Acho que eu vou também. Quero dormir bem, para aproveitar o dia amanhã e dar aulas de computação com bom humor. - completou Miriam, deixando Julichet e os pais sozinhos em casa.
-Filha, estou muito feliz por vocês! - manifestou-se a mãe de Julichet, que até agora estava em silêncio.
-Ai mãe, muito obrigada.
-Filha, você já estava de olho nesse Giovane faz tempo? - Robson começou a interrogar a filha.
-Não pai, foi quando a Mi nos apresentou, eu me apaixonei na hora.
-Por que não me contou?
-Pai... Meninas são meninas, eu não saio contando meus amores para as pessoas.
-Mas eu não sou "as pessoas".
-Robson, menos! - apaziguou a mãe de Julichet, sempre pronta para ajudar a filha.
-Vou dormir, e sonhar com os anjos, que amanhã eu tenho trabalho.
-Eu também. Boa noite.
Todos dormiram, Miriam com a certeza de que o novo casal seria eterno, e os pombinhos, com a certeza de que amavam-se mais que tudo nessa vida, e que queriam ser felizes um ao lado do outro, para sempre, e sempre.
Um novo dia nasce. As meninas vão para o túnel, e começam a chegar as crianças. Algumas para a aula de leitura, com a "tia Ju" e algumas para a aula de computação com a "prô Mi". Robson foi para o Kijukite do Oeste trabalhar, orgulhoso de sua filha, e Giovane foi para a tão enigmática reunião.
-Eu vim aqui fazer uma declaração que pode mudar os rumos desse país. - iniciou o governador Regathci, com cara de enterro. Todos os conselheiros olharam para ele, curiosos, e ele continuou - a partir de hoje teremos o tão temido toque de recolher. Cada cidadão encontrado na rua a partir das dez da noite será detido e só sairá dali três dias. Na segunda vez, seis dias, depois dez, quinze, um mês, dois meses, um ano, dois anos...
-Mas pai! Quer dizer, Vossa Excelência não acha que é exagero um toque de recolher tão cedo? - opinou Giovane, assustando todos os outros conselheiros.
-Não, caro Giovane. Avisaremos a população com uma semana de antecedência, para não pegarmos ninguém desprevenido. Assim o povo será avisado, e poderá se programar. Mas por que a pergunta? - retrucou o governador e pai.
-Porque eu estou namorando, e pretendo ficar com minha namorada até mais ou menos onze horas.
-Pois durma em sua casa.
-Sem possibilidade.
-Isso é uma reunião de conselho, e não familiar! - interrompeu o mais velho dos conselheiros.
-Desculpe. - disseram pai e filho.
A reunião se seguiu, mas o governador estava inflexível. Não mudaria de ideia por nada. À tarde, a notícia chegou ao povo. Quando começou a divulgação, Giovane estava em casa, e Julichet e Miriam, trabalhando no subsolo, por isso elas não ouviram nada.
8 da noite. Julichet estava em casa, chegara cansada de mais um dia de trabalho, mas estava ansiosa para ver Giovane, que chegou com a triste notícia.
-Não acredito! Ai Gi, desculpa, mas eu tenho que ligar pra Miriam. Você não pôde fazer nada?
-Não, meu pai não quis mudar.
-Ai que triste, já venho.
-Ok.
Alguns minutos mais tarde.
-Desculpa a demora, mô, é que a Miriam queria que eu explicasse tudo, e ficou meio inconformada.
-Sem problemas Ju, também estou inconformado. Vamos lá na biblioteca? - disse Giovane levantando-se e pegando a mão da namorada.
-Vamos.
-Sente-se. - disse ele, já na biblioteca, puxando uma cadeira para a namorada.
-Mas, o que viemos fazer aqui?
-Ju, meu pai está muito mal com a morte de meu irmão, e eu já expus que posso tomar posse de algumas coisas, mas com o meu protesto de ontem, sem possibilidade. Meu pai congelou todos meus direitos, e eu não posso fazer mais nada.
-Nossa, mas ele fez isso só porque você protestou na reunião?
-Não... Semana passada a gente discutiu, e ele já estava meio diferente. Mas enfim, eu pensei em tomar o governo.
-Como?! Tomar, tipo com uma guerra? Não! Ele é seu pai. - assustou-se Julichet, levantando-se da cadeira.
-Não Ju, fica tranquila. Eu pensei em promover uns protestos da população, mas escondido, sem que ele saiba.
-Não, não acho justo, eu e a Mi pensamos nisso durante um tempo, mas não dá. Ainda mais agora, a vida dele é o governo.
-É... Ele não tem tanta felicidade em mim quanto tinha no meu irmão...
-Não se sinta assim, não foi isso que eu quis dizer. Ele precisa do governo.
-Mas o governo não precisa dele, o governo precisa de mim, de nós, da Miriam!
-Também acho, mas uma renúncia forçada assim não dá muito certo...
-É... Verdade. Mas eu tenho que entrar.
-E se você conseguir uma forma de obter seus direitos de volta?
-Vai ser difícil, todos os conselheiros me veem como revoltado.
-Já sei!
-Quais são seus planos?
-Eu preciso falar com a Miriam.
-Pra quê?
-Bom, talvez você fique bravo comigo por causa disso, mas a Miriam tinha tido essa ideia um tempo atrás. Ela pensou em uma revolta simples, eu e ela, contra o governo.
-Você ficou louca?
-Eu disse...
-Não dá pra fazer isso! Vocês serão expulsas do país!
-Eu sei, por isso temos que fazer o quanto antes, enquanto somos menores de idade.
-Parece uma boa ideia.
-É, e nós nos veremos pela biblioteca.
-Claro! Vamos pra sua casa, e vamos ligar pra Miriam.
-Vem, meu pai já deve ter chego, preciso falar com ele.
Já em casa, Robson estava jantando, acabara de chegar do trabalho.
-Oi pai!
-Oi filha! Oi Giovane!
-Oi seu Robson, como vai?
-Estou bem sim, e vocês?
-Estamos bem. Pai, preciso falar com o senhor sobre um assunto muito importante, quando terminar aí vem aqui na sala por favor. - cortou Julichet.
-Tudo bem, já vou.
Quando terminou de comer, Robson foi ao encontro da filha, na sala.
-Filha, o que aconteceu?
-Olha pai, o Giovane perdeu a confiança do pai dele porque é visto como revoltado, então não pode mais tomar posse de algumas coisas do governo, então para que o governo não se torne uma prisão, eu pensei em fazer um protesto, só eu.
-Mas um protesto sozinha vai ajudar no que, exatamente?
-Na verdade não seria sozinha, se a Miriam quisesse, ela iria comigo, então nós seríamos expulsas, e o povo ia se rebelar com isso, e começar a fazer protestos e o governador ia renunciar.
-Parece uma boa ideia, fora a ideia de que vocês não poderão nos ver.
-Claro que poderemos!
-Como?
-Pela biblioteca, paizinho.
-É mesmo! Por mim tudo bem, mas aí tem que ver com o seu namorado, e com a Miriam, se ela quer.
-Por mim, tudo bem. - opinou Giovane.
-Dois pontos para mim! Vou ligar pra Miriam.
-Ai, eu vou pra casa, já são dez para as dez, beijo mô, tchau sogro, tchau sogra!
-Tchau mô!
-Tchau!
Julichet ligou para Miriam, e teve a resposta afirmativa dela. Elas fariam o protesto na semana seguinte. Durante a semana, prepararam as malas, deixaram todas na biblioteca, ou melhor, no depósito ainda vazio, que se tornaria um quarto, tinha banheiro, e tudo pronto para elas. A escola, não seria mais necessária, elas se formaram uma semana antes.
Seis dias se passaram. Era a véspera do grande dia, e elas estavam muito nervosas.
-Ai Ju, será que eu vou conseguir?
-Vai sim, Miriam. Você só precisa sair gritando que o "governo é injusto, o país é uma prisão", e pronto.
-Parece simples, mas não é.
-É sim.
-Tudo bem.
Dia seguinte. As meninas acordaram cedo, se despediram de todos, mãe, pai, primo, namorado, e foram. Logo começaram a gritar, já foram carregadas até uma delegacia e obrigadas a se retirar. Tudo deu certo, conforme o planejado.
Logo depois de saírem, foram ao trabalho, onde receberiam visitas das mães, pais, do primo e namorado, e de algumas tias de Julichet, que levavam os filhos para lá.
Assim se passaram dois meses. A biblioteca já se abrira para mais pessoas, todas de confiança, claro. Agora elas tinham ajuda das tias de Julichet, e até da tia de Miriam, a mãe de Giovane, que se orgulhava do filho, da nora e da sobrinha.
Até que um dia, uma notícia chocou Julichet.
-Miriam! Miriam! Vem cá! Meu sogro está na TV!
-Como assim? 
-Ele está se pronunciando, vem ver!
Miriam largou o que estava fazendo e foi ver. O sogro de Julichet estava se pronunciando realmente, mas o que chamava a atenção não era ele, e sim a legenda "governador se pronuncia a respeito dos protestos causados pela expulsão de duas meninas de apenas 16 anos, segundo fontes do governo, elas são líderes de um movimento de revolta".
-Movimento de revolta?! Agora sim eu estou revoltada! - berrou Miriam - Julichet, você não vai se mexer?
-Miriam, escuta. Ele está falando de uma única solução, ele renunciou. RENUNCIOU!
-Não acredito! Meu filho é o governador! - desesperou-se a mãe de Giovane.
Agora todos os olhares se voltavam para a única televisão do cômodo. O sucessor ao governo começava a se pronunciar, ele estava muito emocionado.
-Bem, meu nome é Giovane, e eu sou o seu novo governador. Tenho 17 anos, e só me tornei o sucessor direto ao governo depois da morte de meu irmão, alguns meses atrás. Não pensem que estou feliz com a morte dele, me abalei muito com isso. Minha primeira mudança será na lei das esposas. Eu terei apenas uma esposa, e declaro livres, todas as mulheres que moram na famosa "casa das esposas". Garotas, vocês nunca mais irão para essa casa, que se tornará um abrigo para jovens de rua. O toque de recolher está desativado, e a entrada de livros totalmente permitida. Para as pessoas que estão condenadas à prisão perpétua, prometo uma revisão da pena. Para quem usa o telefone, estão livres, não serão mais monitorados. Para quem foi expulso, vocês podem entrar sim no país, e para os menores de idade, vocês poderão sair, mas com autorização dos pais. Outra coisa, eu gostaria de agradecer à Julichet, minha namorada, e à Miriam, minha prima. Pois foram elas que me motivaram a pensar de forma mais livre, e foram elas que motivaram toda essa multidão a vir aqui, protestar conta o governo, que não será mais injusto, e o país não será mais uma prisão.
A multidão aplaudiu o pronunciamento do governador, emocionada. Julichet e Miriam choravam desesperadamente. As duas saíram correndo, rumo ao local onde estava Giovane. Elas chegaram depois de vinte minutos, e ele mostrou-lhes para a multidão.
-Gente, essa à minha direita é minha prima, Miriam, que foi expulsa, e essa à minha esquerda é a Julichet, minha namorada. Ju, na frente de todo mundo, você quer casar comigo?
-E-Eu? Assim, agora? É... Claro que aceito! - disse ela, chorando de emoção.
-Pois bem. Vos apresento, a primeira dama do Kijukite do Leste! - disse Giovane, emocionado.
O antigo governador assistia tudo ao lado, chorando de emoção. Ele não se arrependia de ter deixado o governo nas mãos do filho, sabia que ele seria sábio em suas decisões.
-Bom gente, não pensem que eu sou chato, porque não sou, mas eu peço que vão para suas casas, porque hoje eu quero me reunir com toda minha família. Espero que vocês sejam muito felizes e sintam-se livres!
Assim foram as primeiras horas do novo presidente, muito alegres, reunindo a família, tanto o pai quanto o sogro estavam presentes na reunião, que graças a Marcela, se tornou num jantar muito especial.
Alguns meses se passaram, Miriam e Julichet fizeram 17 anos, agora eram maiores de idade, assim como Giovane. Este faria 18 em dois meses, e era sobre isso que falavam.
-Ju, o que acha de casarmos no meu aniversário?
-Acho que está muito perto, Gi. Mas se conseguirmos fazer tudo em pouco tempo, dá sim. Só temos que ver madrinhas, padrinhos.
-Eu estava pensando em chamar alguns irmãos e irmãs, lá da "casa das esposas", e você?
-Pensei na Miriam, nos pais dela, nuns amigos dos meus pais, mas não sei quem fica com a Mi, precisamos de um par para ela.
-Ela está chegando, vê se ela não tem nenhuma ideia.
-Oi Miriam!
-Oi Ju, estavam falando de mim?
-Estávamos, quem você acha que ficaria legal do seu lado no altar?
-Como assim? No casamento de vocês, né?
-Claro, priminha. A não ser que você pretenda casar...
-Não! Não... Acho que o Vitor, que dançou comigo na formatura, seria um bom par.
-Por que ele?
-Porque ele é meu amigo, eu gosto dele, Ju. Mas só como amigo, tá?
-Ah, já entendi...
-Giovane! Deixa a menina. Ela só tem 17 anos!
-E você tem quantos? 35?
-É, mas enfim, deixa ela escolher o par dela, sem nada de namoricos, né Mi?
-É, Ju, claro que é. Tenho que passar na biblioteca, depois eu ligo pro Vitor e te falo se ele aceita, ok?
-Sem problemas.
À noite, depois de um dia longo de trabalho, Miriam liga para convidar Vitor para ser padrinho do casamento de seu primo.
-Alô? 
-Alô? Oi Vitor, aqui é a Miriam.
-Miriam, quem é Miriam?
-Eu dancei com você na formatura, lembra?
-Ah! Lembrei agora! A menina do vestido torto!
-Meu vestido não era torto, você que estava torto!
-Tá, tá! Mas porque você me ligou?
-Ah, porque eu preciso de um padrinho pro casamento da Julichet, e como você dançou comigo na  formatura, seria uma boa ideia ir comigo no casamento, não acha?
-Acho? Pode ser, mas quando é isso?
-Ah, daqui uns dois meses.
-DOIS MESES? Você quer me transformar num padrinho em dois meses, garota?!
-Mas é só você saber entrar e ficar no altar, comprar um terno, e pronto!
-Ah, sim. E você vai ser meu par, é isso?
-É, é isso mesmo.
-Claro.
-Então... Tudo certo, Vitor?
-Tudo certo. Amanhã eu vou na biblioteca acertar os detalhes, tchau.
E desligou.
-Nossa, que educado o meu par, ein?
-Falando sozinha, filhinha?
-Não, mãe. Eu só tava pensando alto.
-Esse Vitor aceitou ir no casamento?
-Aceitou, mas ele só vai ser uma estátua no altar, se não causar problema.
-Filha, consegui uma coisinha, vem cá.
-Estou indo, que barulho de ferro é esse, mãe?
-Oi filhota!
-PAAAI! PAAI! PAI! AI MEU DEUS! MÃE, MEU PAI ESTÁ AQUI! NÃO ACREDITO! Pai, que saudades! O senhor está aqui? Ai, pai, como eu queria te ver, queria tanto, tanto te ver! - Miriam não conseguiu dizer mais nada. Quando percebeu, estava abraçada ao pai, ou melhor, à cadeira de rodas com o pai, chorando copiosamente.
-Filha, seu pai acabou de sair do hospital, ele ainda não está inteiro.
-Deixa ela, só estava com saudades.
-Desculpa, pai. Mas então, o senhor consegue mexer os braços?
-Claro filha, os braços eu consigo, e como fiz uma cirurgia, com tratamento, eu tenho 70% de chance de voltar a andar.
-Ai, que legal, pai! Espera um pouco que eu vou chamar alguém.
-Quem ela vai chamar, Joana?
-Espera um pouco, logo logo elas chegam.
-Elas? O que vocês estão aprontando?
-Olha lá, elas chegaram.
Julichet para na porta. Ela não consegue acreditar no que está vendo.
-Miriam, esse é o seu, quer dizer, nosso, pai?
-Sim, Ju, pode entrar.
Hugo não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo.
-Oi mocinha, qual seu nome?
-Oi pai, meu nome é Julichet.
-Pai? Espera aí, você é filha da...
-Marielen, sim, sou.
-E de onde você conhece a Miriam?
-Da escola, a gente se tornou amiga, e há um tempinho eu descobri que era sua filha. 
-Que legal! Mas espera, eu conheço você! Eu estou lembrando agora! Eu vi vocês duas, mocinhas, na posse do novo presidente. E você, Julichet, é a primeira-dama, se eu não me engano! Noiva do presidente, que é primo da Miriam, não é isso?
-É isso mesmo pai. Vou casar com o Giovane sim, daqui uns dois meses. O senhor pode ir?
-Se eu posso ir no casamento da minha própria filha? É claro que sim! Mas será que o Robson não vai achar ruim?
-Não, mas como o senhor sabe o nome do Robson?
-Vocês eram meus vizinhos, lembra?
-É mesmo.
-Meninas, o Hugo precisa descansar, já está de noite, amanhã vocês falam com ele, tudo bem?
-Ah, tudo bem mãe. 
-Vou indo então. Tchau Mi, tchau pai, tchau mãe da Mi!
-Tchau!
Em casa, Julichet conta para seus pais a grande novidade.
-Filha, por que a Miriam veio te buscar correndo e você já voltou?
-Ai, pai, o senhor não faz a mínima ideia, sabe quem estava lá na casa dela?
-Quem? O presidente?
-Pai, o presidente vem aqui em casa quase todo dia, não é novidade.
-Ah, é mesmo. Ás vezes eu esqueço que sou sogro do presidente.
-Voltando ao assunto, quem está lá na casa da Miriam é o Hugo, meu pai.
-O Hugo? Mas ele não estava paraplégico lá no hospital? Marielen! Você ficou sabendo que o Hugo teve alta?
-QUEM? Filha, você está dizendo pro Robson que o Hugo, o mesmo Hugo que seu pai, está em casa? - se assustou Marielen. 
-Sim, mãe. O Hugo, meu pai biológico, nosso ex-vizinho, ele mesmo. Está paraplégico, mas conseguiu ir pra casa. A Joana, mãe da Miriam, conseguiu uma pequena vantagem por ser tia do presidente.
-Mas que legal filha! Só não se esqueça do seu pai aqui, viu?
-Que isso, pai! Ele é meu pai biológico, mas o senhor que me criou, que me conhece desde que eu me conheço por gente. E não tem problema ele ir no nosso casamento, tem?
-Claro que não, né Robson?
-Não, sem problemas!
-Então tudo certo. Amanhã tenho que trabalhar. No ritmo em que estamos, em uma semana já poderemos inaugurar a nova unidade da biblioteca. Boa noite!
-Boa noite, filha! - disseram Robson e Marielen.
A semana que se passou foi normal, mas bem agitada. Hugo conheceu a biblioteca subterrânea das filhas, que agora era a Biblioteca Oficial do governo, As meninas terminaram a obra na segunda biblioteca, que ficava perto da casa de Giovane, até que, na sexta-feira, véspera da inauguração, chegaram lá e estava tudo destruído.
-Julichet, olha isso!
-Meu Deus, Miriam! Algum revoltado destruiu nossa biblioteca! Vou ligar imediatamente pra polícia!
-Eu vou entrar lá pra ver o que quebrou. Ainda bem que os livros ainda não estavam aqui.
A polícia chegou e constatou-se que apenas os vidros da fachada estavam quebrados. As câmeras de segurança mostraram um homem encapuzado com tatuagem no ombro, quebrando os vidros com uma pedra. A inauguração de sábado foi cancelada, e remarcada para terça-feira, quando os vidros já estariam recolocados. Terça-feira de manhã era o dia da primeira prova de roupas para o casamento.
-Oi Miriam! Vamos? 
-Oi Ju! Já vou, o pai não vai porque tem sessão do tratamento hoje.
-Ah, não tem problema, o dele é só o terno, é rapidinho. E o Vitor?
-Estará lá dentro de 15 minutos. Acabei de ligar pra ele.
-Então vamos.
Chegando lá, elas encontraram Vitor, já impaciente na porta.
-Mocinhas, mocinhas. Já fazem vinte minutos que eu estou aqui, e nenhum sinal de vocês.
-Ah, Vitor, é que a gente pegou um trânsito horrível, não é, Ju?
-É sim, e por que o mocinho não entrou?
-Ah, porque me barraram, é claro. Me acharam com cara de marginal.
-Coitadinho... Você viu o Gi?
-Se eu vi o presidente? Claro que vi. Ele entrou, todo pomposo, nem me viu, de tanta gente que tinha em volta.
-Ah, então vamos entrar, vamos Miriam!
-Ã? Ah, sim, vamos, vem Vitor.
Lá dentro Julichet escolhe seu vestido. Ela diz que tem certeza que quer aquele. Miriam impede Giovane de entrar no quarto da noiva, e também escolhe o seu, antes de ajudar Vitor.
-Mas é só um terno, não precisa de tanta frescura!
-Precisa sim, Vitor! Meu vestido é verde, sua gravata tem que ser verde. Risca de giz, nunca mais! Terno preto, liso. Útil para todas as ocasiões, perfeito! Vai ali se trocar, vou esperar aqui.
-Não sabia que precisava combinar com você, senhorita.
-Pois precisa. Vitor, fecha a cortina! Espera! Isso aí no seu ombro, é uma tatuagem?
-É, é sim, é o rosto da minha cachorrinha, gostou? Acho que menininhas gostam de coisinhas fofinhas, né? Fiz por causa da minha mãe.
-Ah, bonitinha. Agora fecha a cortina e se troca!
Miriam sabia que aquela era a mesma tatuagem do homem encapuzado que destruiu as vidraças da biblioteca, e também sabia que o certo era contar pra polícia quem era Vitor, mas ela não conseguia. Se sentia tão incapaz perto daquele garoto de olhos verdes e cabelo castanho, que não sabia o que fazer. A única coisa a se fazer era manter ele longe das vidraças antes da inauguração da noite. E foi isso que ela fez a tarde inteira. Alugou o garoto, para ajudar a montar a festa.
-Pronto, vou indo pra casa, tchau Ju!
-Tchau!
Em casa, ela coloca seu vestido especial. Roxo até os joelhos, e uma sapatilha bem confortável, mas fica magnífica.
-Parabéns, filhota, você está linda!
-Obrigada pai, vamos logo.
Durante a festa, Miriam se divide entre cumprimentar os convidados e observar Vitor, mas Julichet percebe e conta para Giovane, que vai conversar com a prima.
-Por acaso a senhora de vestido roxo está de olho no garoto de camiseta e bermuda?
-Sim... Quer dizer, oi Giovane! Não, estou apenas de olho no movimento! Já venho, tchau! - Miriam se dirige até a estante onde Vitor está, sua estante favorita.
-Olá, madrinha.
-Ah, oi Vitor. Essa é minha estante favorita.
-Os títulos parecem legais. - diz ele, olhando fixamente nos olhos dela, e se aproximando.
-E os primeiros quatro são os livros que eu comprei enquanto atravessava ilegalmente.
-Corajosa, você, ein?
-Ah, que nada, tive ajuda da Ju e do Rob.
Em poucos segundos, a atenção de todos na festa estava voltada ao casal que se beijava em frente a uma das estantes da biblioteca. Quando Miriam caiu em si, tentou se explicar.
-Eu, quer dizer, ele... Desculpem.
-Miriam, vamos sair daqui, é melhor. - cochichou Julichet.
A festa fluiu como planejado. Nenhum outro beijo, nenhuma vidraça quebrada. Em uma semana Julichet convidou os padrinhos para uma festa de preparação para o casamento que se aproximava. Vitor chegou bêbado.
-Alguém me ajuda aqui! Miriam! - se desesperou Giovane, ao ver o convidado desmaiado em seu ombro.
-Ai, alguém chama uma ambulância, eu vou ficar aqui vendo se ele acorda.
-Quem tem que acordar é você, Miriam! Gostando de um garoto que te beija e fica uma semana sem falar com você, e depois chega bêbado! Já pensou o que ele vai fazer no meu casamento? Se ele estragar minha felicidade, a culpa vai ser toda sua, e eu estou falando sério!
-Ai, Julichet! Lá vem você, só porque é noiva do presidente, se acha a garota mais certinha e vive dando conselhos, mas só se preocupa com a própria felicidade, o próprio casamento! Vê se arranja uma ambulância logo.
-O Giovane já ligou, mas nem precisava. Esse irresponsável merecia ficar aí, desmaiado, até resolver acordar! E você, Miriam, acha que seu namoradinho é o centro do mundo!
-EU? Agora sou eu que acho que meu namorado é o centro do mundo?
-Meninas, chega! Sem essa de brigar por causa de um bêbado!
-Mas, pai, a Julichet só pensa na própria felicidade! Eu estou sendo solidária com o garoto e ela preocupada com o casamento.
-Pai!
-Menos, menos. Vocês vão ficar quietas a festa toda ou eu não me chamo Hugo.
-Ah, obrigada, seu Hugo. Não dá pra acalmar essas duas.
O clima entre Julichet e Miriam foi ficando cada vez mais pesado. Para não se verem, elas iam cada uma para uma biblioteca, e só conversavam o necessário. Nas duas próximas festas, Vitor não chegava bêbado, mas bebia durante a festa, causando confusão. Giovane não aguentava mais a situação, e precisava conversar com a noiva.
-Olha Ju, já faz quase um mês que você e a Miriam não se falam direito, e essa situação está chegando no limite. Ela é sua irmã, e acima de tudo, sua melhor amiga!
-E você acha que eu estou de acordo com isso, Giovane? Não dá pra falar com ela, agora é tudo Vitor, Vitor, Vitor. E isso porque eles nem estão namorando! Eu só não tiro ela da lista de madrinhas porque falta pouco tempo. Péssima ideia essa de casar correndo.
-Agora a culpa é minha! Me poupe, Julichet! Foi você que começou a gritar com a menina lá na festa, não eu!
-Ela está estranha desde quando as vidraças da biblioteca foram destruídas. Parece que ela acha que foi culpa minha.
-Realmente. Esse Vitor está piorando a Miriam. Vou tentar conversar com ela.
-Ah, e você acha que eu nunca tentei? Todo dia, na hora de ir pra casa, eu espero por ela lá na rua, mas ela me evita e não olha na minha cara. Quando eu tento falar com ela, ela começa a gritar e reclamar que eu não quero a felicidade dela.
-Mas será que a sua forma de conversar com ela é a certa?
-É claro que é! Eu tento falar com ela sobre o Vitor, sobre a vidraça, sobre o beijo, qualquer coisa, mas ela está muito arisca, parece que tem medo de mim!
-Então ela está escondendo alguma coisa. Será que ela está envolvida em alguma coisa de drogas?
-Ai, será? Tomara que não. Vou pra casa falar com ela. Até mais!
-Até! Boa sorte!
Em casa, Julichet encontra Miriam, chorando.
-Miriam! O que aconteceu?! Não me diga que o Vitor fez alguma coisa pra você.
-Não, Ju. É que eu estraguei tudo, desculpa.
-Estragou o que?
-Nossa amizade. Depois que eu me envolvi com o Vitor, eu estou muito ruim com você.
-Mas vocês estão namorando?
-Não, só estou gostando dele, mas está dando tudo errado.
-Fica tranquila, eu vou estar aqui.
-Mas, ai, não dá. Acho que eu não vou no seu casamento.
-Por quê?! Não é justo você não ir por causa de um garoto!
-Mas também não é justo eu prejudicar seu casamento.
-É... Você tem razão. Vou falar pro Gi.
Em dois dias, Miriam não conseguiu encontrar Vitor. Só no sábado, quando ele apareceu em sua casa.
-Vitor! Preciso falar com você. 
-Eu também, essas são para você.
-Rosas?! São minhas flores favoritas! Obrigada! Senta aí.
-Então, eu estava pensando no que aconteceu com a gente naquela inauguração...
-Ah, desculpa, foi sem querer, já disse.
-Sem problemas, eu queria saber se você quer ser minha namorada.
-QUÊ? Namorada, assim, tipo eu, e você? - Miriam, que estava prestes a abrir o jogo com Vitor, e dizer que sabia quem ele era, esqueceu totalmente da vida.
-Sim, eu, Vitor, quero ser se namorado. E você, aceita?
-Ah, é, é claro que eu aceito.
-Aceita o que, filha? - Hugo chegou do tratamento.
-Ah, oi pai! O Vitor me pediu em namoro.
-O Vitor?! E você aceitou, claro. Vitor, faça-me o favor de ir para sua casa. Preciso falar com a Miriam.
-Sem problemas, seu Hugo. - Vitor despediu-se com um selinho em Miriam, que ainda estava atônita.
-Filha, que história é essa?
-Eu e o Vitor estamos namorando...
-Sim, estão, mas por que?
-Porque eu gosto dele.
-E ele é um bêbado destruidor de vitrines, filha!
-Pai, como o senhor sabe disso?
-Acha que eu não vi o ombro dele aquele dia que ele fez escândalo na festa e tirou a camisa? Ninguém mais viu porque estavam todos preocupados em segurar ele. Como eu fiquei lá parado, percebi tudo. Por que você não conta pra Ju?
-Ah, se eu contasse pra ela, ela ficaria com raiva de mim, por ter escondido isso tudo. Eu ia abrir o jogo com ele, mas...
-Mas ele te comprou com um buquê e um pedido de namoro. E eu não aprovo esse namoro.
-Mas, a gente se gosta, pai!
-Eu não gosto dele, filha. Ponto final. Vou descansar. - Hugo saiu da sala girando a cadeira.
A confusão estava armada. Miriam estava namorando, mas nem seu pai nem sua irmã aprovavam seu namoro. Com certeza sua mãe concordava com os dois, e ela corria o risco de que seu pai contasse a todos sobre quem era o verdadeiro destruidor de vidraças. Dali a uma semana seria madrinha de casamento de sua irmã, o que faria? Decidiu falar com Julichet.
-Alô, Ju?
-Oi, quem é?
-É a Miriam, tudo bem?
-Oi Mi, tudo sim, e você?
-Tudo, queria falar pra você uma novidade...
-O quê? A senhorita está muito empolgadinha.
-É que eu e o Vitor estamos namorando.
-Você e o Vitor bêbado?! E o que o pai achou disso? Já sei, aposto que você nem pediu permissão pra ele, já aceitou, né? 
-É, eu achei que ele não ia reclamar, mas quando eu aceitei ele chegou e me disse que não aprova. 
-Pois é. O que você fez foi errado, e eu concordo com o pai. Sério, você não deveria namorar esse garoto. Ele só te prejudica. Eu quero muito que você vá ao meu casamento, pois foi você que me aproximou do Giovane e você é minha irmã, mas eu não quero mais esse Vitor. Falei com o Gi, e você fica com o pai, assim não fica sozinha, nem ele.
-Sem o Vitor, sem mim. Não há a mínima possibilidade de eu ir sem meu namorado.
-Então não precisa ir. Você não nasceu grudada nele, não precisa de tanto problema.
-Tudo bem, caso precise falar comigo, estarei na biblioteca subterrânea essa semana toda. - Miriam desligou, não aguentava mais ver todos contra ela. Desabou a chorar.
A semana passou, e na sexta-feira, véspera do casamento, Vitor chamou Miriam para sair. Ela aceitou, pois precisava refrescar a cabeça, mas no meio do caminho teve uma ideia.
-Vitor, vira aqui, por favor.
-Por que, mozinho? Alguma surpresa?
-Aham, tenho uma surpresa pra você.
-Que legal! Adoro surpresas. Minha princesa não está aprontando nada, não é?
-Não, nada demais. Por quê?
-Por nada. - Vitor se ajeitou no banco e Miriam pode ver alguma coisa brilhante em sua cintura. Seria uma arma?
-Ontem eu estava falando com o Giovane sobre os planos dele pro governo, e ele disse que uma das primeiras medidas depois da lua-de-mel será em relação à violência, com a proibição de armas não registradas. O que você acha disso?
-Boa tentativa. Eu sei de tudo. Não adianta tentar me fazer ir até a delegacia. Sim, eu já percebi onde você queria ir, e caso seja interessante você saber, eu sei que você sabe que eu sou o cara que destruiu a vitrine e seu pai também. Já sei que você viu a arma, devia ter sido mais cuidadoso, mas agora você é um risco para mim. Um risco que eu não quero correr. Seu pai também, mas ele eu resolvo depois. Você vai se arrepender de ter se apaixonado por mim, garota. - Vitor encostou o carro em frente a um terreno baldio e sacou a arma.
-Vitor! Espera aí! Você tem certeza do que vai fazer? Se você me matar, vai ter sérios problemas. Minha mãe me viu saindo com você, ela sabe que se eu sumir, eu estava com você. Não adianta você aparecer com uma historinha, pois, como você já disse, meu pai sabe de tudo. Não é bem melhor você se entregar, pagar uma indenização pela vitrine, e ir embora?
-Para você é simples, não é? É tão simples ir numa delegacia e se entregar, não é mesmo? Sabe porque você acha isso? Porque você sempre teve e ainda tem tudo na mão. A biblioteca, seus pais, seus amigos, até o governo você controla! Agora você está vendo como é ser marginalizado por causa de uma escolha. Eu escolhi ajudar meu pai e minha mãe fugiu com outro homem. Depois escolhi procurar minha mãe, e quando estava visitando ela, meu pai morreu. Sabe por quê eu dancei com você? Porque todas as garotas, menos você, estavam já de parzinho formado. Eu não era sua única opção, mas você era minha única opção. Não sei o porquê, mas você me escolheu. Pela primeira vez em sete anos, eu me senti importante, e é por isso que eu aceitei. É por isso que eu aceitei ir no casamento da sua irmã, é por isso que eu te pedi em namoro. Você faz com que eu me sinta importante, mas eu não te amo. É uma questão de orgulho. Não me entrego, nem à polícia, nem ao amor. - uma lágrima começava a se formar no olho de Vitor.
-Por que você nunca contou isso? Vitor, você podia ter mudado totalmente sua vida!
-Mas você não entende! Não é simples! Não é nem nunca foi! Você não sabe como eu vivi esses anos sem ninguém. Ai, esquece. Fecha a boca. Fecha! Não dá pra por o esparadrapo se você estiver falando.
-Esparadrapo?! - Miriam não conseguiu falar mais nada. Vitor, com lágrimas nos olhos, colocou um esparadrapo em sua boca e saiu dirigindo.
Agora Miriam percebera a enrascada em que estava entrando. Se apaixonara pelo garoto errado, teve a ideia errada, no momento errado. Mas agora era tarde, porque no final das contas, ela morreria nas mãos dele, sem chance de pelo menos avisar seu pai, a próxima vítima. De repente tudo ficou escuro, e ela só acordou depois, num quartinho onde a única iluminação vinha da vela que Vitor segurava.
-Vitor? Eu ainda estou viva? Onde estamos? Por que minha cabeça dói tanto?
-Ai! Pra quê tanta pergunta?! Se você quiser, eu faço você dormir agora mesmo!
-Não, não precisa! Só me diz onde eu estou. Por favor, Vitor.
-Você está onde eu quero que você esteja. Agora fica quieta se não seu próximo quarto vai ser um poço.
-Vitor! O que é isso? Não me diga, por favor, que aquele garoto emocionado que me sequestrou ontem, e aquele garoto que me beijou outro dia, era tudo encenação. Eu não quero acreditar nisso.
-Pois não acredite, então. Eu realmente estava fora de mim essas vezes. Não sei direito o que eu estava pensando e...
-Shh, você não estava fora de si, você estava se deixando viver. Porque o que você faz agora é se preocupar em destruir pessoas, destruir vidas. E é isso que você está fazendo agora. Você está se privando de poder ser feliz, é isso.
-Ah, agora você resolveu que vai me dar lição de moral? Não, não vai não. Aqui tem uma marmita pra você não ficar com fome. Até logo.
-Vitor, onde você vai? Eu não quero ficar sozinha!
Mas foi em vão. Vitor, mesmo chorando, foi-se em direção à porta, que Miriam não conseguia ver. Desistindo de tentar se libertar, ela resolveu comer a marmita que ele deixara. Mas parou por um instante para pensar. Será que já era o dia do casamento de Julichet? Será que já era sábado? O que será que Vitor estava fazendo lá fora? Essas dúvidas acabaram com seu apetite, mas logo a fome voltou. Por que tudo aquilo estava acontecendo com ela? Por que justo o garoto mais lindo do planeta resolvera ser o garoto mais frio? E por que ela se apaixonou por ele? 
De repente ela ouviu um barulho, parecido com um tiro, vindo do lado de fora.
-Quem é? Socorro! Me tira daqui! - Miriam tinha esperanças de que o barulho não viesse da arma de Vitor.
-Ah, eu sou o pior sequestrador do mundo, fala sério. - Vitor entrou, recolocando a arma na cintura - Eu só estava treinando minha mira, fica tranquila, você ainda vai ficar um bom tempo aqui no meu hotel de luxo.
-Que dia é hoje? A Ju já casou? O que está acontecendo lá fora?
-A Julichet casou sim, e a vida está rolando normalmente lá fora, eu peguei seu celular e mandei mensagem pra sua mãe pedindo desculpas, como se a gente tivesse fugido pra bem longe, prometi dar notícias em um mês, então fica tranquila que você tem mais um mês de vida garantido.
-Como você pôde?! Você não tem direito de mentir pra minha mãe dessa forma! A Julichet deve estar sentido raiva de mim, todos devem estar me odiando!
-Resposta correta! Sua irmã quase cancelou a viagem de lua de mel por causa da nossa "fuga", porque seu pai e sua mãe quase entraram em depressão, mas o Giovane convenceu ela a ir, porque seus pais estão hospedados na casa dos pais dela. Sério, garota, a sua família é muito unida com a da Julichet.
-Graças a Deus nós somos unidos, não é, Vitor? Se os pais da Ju não dessem esse apoio, meus pais iam morrer de depressão. Eu devia ter seguido meu pai, ele me disse que não aprovava nosso namoro. - Miriam caiu no choro. Num impulso, Vitor a abraçou - Vitor? Por que você fez isso comigo, por que você fez isso com a gente? Você merece uma vida bem melhor que essa.
-Mas eu não posso simplesmente cancelar tudo isso que eu estou fazendo, se eu parar agora, você acha que alguém vai ter piedade de mim, só porque eu sou "sensível"? Já que eu comecei, eu tenho que terminar, mesmo que doa. - Agora Vitor estava segurando as mãos amarradas de Miriam.
-A gente pode simplesmente voltar e contar a verdade, você vai ter uma dívida com a justiça, mas juntos, a gente pode resolver tudo, não precisa de violência. Eu te amo, Vitor.
-Eu não sei se te amo, Miriam. Te ver tentando me levar pra delegacia, me deu raiva e vontade de te matar, mas agora, te ver sofrida, tão maltratada, me dá uma vontade de te abraçar e te dizer que tudo isso vai terminar, que eu não sei mais o que eu sinto.
-Mas isso tudo pode terminar, é só você fazer o que é certo.
-Falando em fazer o que é certo, sua irmã não casou. Quando sua mãe recebeu a mensagem e falou pra ela, o Giovane concordou em adiar o casamento até semana que vem, pra ver se eles te acham antes disso.
-Não sei o que é pior, ela ter casado sem mim e quase ter cancelado a lua de mel, ou não ter casado. Mas como você descobriu tudo isso?
-Simples, eu me passei por você e fiquei mandando sms pedindo notícias, daí ela falou tudo isso.
-Ai, eu não consigo nem acreditar que isso está acontecendo comigo. Eu estou apaixonada por um garoto, aparentemente ele também, mas ele não quer assumir e ainda me sequestrou. Qual a lógica disso tudo?
-É verdade, nossa vida parece mais um emaranhado de problemas e amores. Mas, Miriam, hoje eu queria só ficar mais um tempinho sozinho, amanhã de manhã eu venho aqui decidir o que faço da vida com você, tudo bem?
-Se você prometer que não vai me matar, tudo ótimo.
-Não sei de onde saiu essa ideia de te matar, sério.
-Mas hoje mesmo você disse que teve vontade de me matar.
-Bem, isso é verdade, eu ia atirar em você hoje ou amanhã, mas isso foi antes de te ver chorar. Você fica linda chorando, sabia?
Miriam não resistiu e beijou seu sequestrador-namorado-ou-sei-lá-o-quê.
-Me arrependi de não ter te deixado com o esparadrapo, garotinha. - Vitor a beijou novamente.
Os pombinhos ficaram juntinhos ali, Miriam sentada (e amarrada) numa cadeira, e Vitor agachado de frente para ela, até que ele se lembrou que tinha de ir pra casa.
-Até logo, Miriam!
-Até logo, Vitor, eu te amo! - Miriam ficou sem resposta, Vitor sumiu na porta invisível.
Algumas horas se passaram, o que pareceu dias para Miriam, que naquela escuridão e angústia, decidiu orar, mesmo um pouco distante do Deus que sua mãe havia apresentado-lhe.
-Senhor, não sei bem se o Senhor ainda pode me ouvir, mas enfim, eu sei que fiquei tanto tempo sem falar Contigo, desde aquele dia que meu pai sofreu o acidente, quanto tempo, né? Mas obrigada por me deixar viver todo esse tempo, pelo relacionamento da minha irmã e do meu primo, obrigada pelo meu pai, minha mãe, pela mudança de governo. Eu não sei se sou digna disso, mas queria uma ajuda Sua. Queria que me ajudasse a sobreviver e ajudar o Vitor a sair dessa. Ajuda ele a não me matar e perceber que por trás daquela vontade de matar as pessoas existe uma vontade de amar maior ainda. Eu queria Te pedir que conforte minha família, para que eles não sofram por uma mentira. Amém.
-Você fica mais linda ainda rezando.
-AAH! Vitor! Eu podia estar pelada!
-Como se você conseguisse pelo menos ficar de pé, né?
-Foi só um exemplo. Como você pôde entrar tão silenciosamente?
-É simples, eu nunca saí do galpão. - disse ele acendendo as luzes. Os olhos de Miriam chegaram a doer, de tanto tempo sem ver luz - Ali é meu quartinho, e esse é o seu. - Miriam estava num depósito de alguma coisa parecida com grãos, ensacada e em várias pilhas.
-Isso aqui é um depósito de uma fábrica.
-Era. Uma fazenda de arroz foi denunciada por colocar veneno nos grãos e tudo isso foi deixado pra trás. Foi só quebrar uma janela e puf, esse é meu esconderijo oficial. Como passou a noite?
-Desconsiderando o fato de que eu não mexo as pernas há alguns dias e quase já não sinto elas, tive uma ótima noite.
-Primeiro passo da libertação: desamarrar as pernas - Vitor cortou as cordas que prendiam as canelas de Miriam à cadeira.
-Mas como minhas pernas são lindas! Sério, nunca mais vou reclamar delas! Obrigada, Vitor! - Miriam levantou e saiu pulando pelo galpão.
-Já que a senhorita canguru não quer, eu não desamarro suas mãos.
-Não! Eu quero sim! Pode desamarrar.
Vitor desamarrou as mãos de Miriam facilmente, e a primeira coisa que ela fez foi abraçá-lo.
-Bem, quando uma pessoa te sequestra não é isso que geralmente se faz, mas tudo bem. 
-É isso que se faz quando você perdoa alguém, e quando ama também.
-Ooh, que fofinha. Bem, não é todo dia que a prima do governador do país foge, então seu primo mandou dobrar o número de viaturas por aqui.
-E o que isso tem a ver?
-Bem, vidro quebrado mais galpão abandonado é igual a suspeita, então eu ouvi uns homens falando ontem sobre entrar aqui. Eu estou estudando a possibilidade de sair daqui hoje mesmo.
-Você tem um chuveiro?
-Ah, sim. E eu tinha encomendado umas roupas para te dar de presente. Chegou uns dias antes do sequestro, e vieram a calhar agora.
-Obrigada! - Miriam saiu correndo em direção ao banheiro indicado por Vitor, onde estavam suas roupas novas e um chuveiro esperando por ela.
Já vestida com a roupa nova, Miriam se apresenta para Vitor.
-Olha, se você pensa que vai pular uma janela de saia, a escolha é sua. A calça de moletom era justamente para isso.
-É mesmo! Esqueci! Já venho.
Em cinco minutos, ela estava vestida com calça e blusa de moletom, e pronta para sair daquele galpão.
-Vitor, e se algum policial nos encontrar? Eles me conhecem.
-Ninguém mandou ser prima do presidente. Mas se alguém encontrar a gente, a gente confirma a história da mensagem: que a gente fugiu e agora você resolveu voltar. Eu não quero ser preso, por favor. Eu faço qualquer coisa para você, trabalho como escravo pro seu primo, fujo para uma ilha distante, qualquer coisa.
-Não! Não precisa não, eu vou confirmar sua história, só que você tem que prometer que vai mudar de vida. Não vai mais ter essas armas, nem destruir vitrines, e vai morar perto de mim.
-Tudo bem, comandante! Agora vamos, logo vai escurecer.
Eles conseguiram usar uma janela quebrada para sair, e depois de passarem pelos policiais sem serem vistos, chegam ao centro da cidade.
-Pronto, agora você está de volta!
-Como essa cidade é linda! Não acredito que eu já reclamei disso tudo!
-Pois é. Vamos de ônibus?
-Bem melhor, eu coloco o boné e o óculos e fica mais difícil alguém me reconhecer.
Chegaram. Em frente sua casa, Miriam paralisou.
-Que foi, Miriam?
-Nada, eu só estou com medo da reação da minha família. Se eu disser a verdade, você vai ser preso, se eu mentir, vou ser chamada de irresponsável por fugir, e agora?
-Você está certa. Todo mundo está aí dentro, menos seu primo. Se você contar pro seu pai, ele vai acabar comigo, se você contar pra sua mãe e pra sua prima, elas vão acabar com você. É questão de escolha.
-Primeiro, como você sabe que o Gi não está aí?
-Ele está acompanhando as buscas pessoalmente, a Ju só não foi com ele pois precisava dar um apoio pros seus pais e pros pais dela.
-Ah, compreendo. Vou fazer o seguinte, entrar, dizer a verdade, e dizer que você tinha se arrependido, e que tinha ido pra casa, e que eu não sei onde você mora, e tudo isso é verdade. Não vou mentir pra minha família. Pros policiais eu até diria, mas pra minha família não dá.
-E eu?
-Você vai pra casa, fica lá, até eu te mandar uma mensagem. Ah, e devolve meu celular, por favor. Vou precisar dele.
-Claro! Vou indo pra casa, tem alguém saindo da sua casa.
Vitor partiu, e Miriam ficou sentada na calçada, em frente sua casa, que já não parecia mais sua casa. Já fazia tanto tempo que ela havia deixado aquele lugar para "passear" com Vitor, que ela sentia como se tivesse se mudado para aquele galpão. Ela ficou mergulhada em seus pensamentos até que ouviu uma voz muito conhecida, a de sua irmã, Julichet.
-Tchau, pai! Tchau, Jô! - "ela até deu apelido para minha mãe", Miriam pensou. Ficou ali, silenciosamente, e viu Julichet sair, e atrás dela, sua mãe e Robson. Nenhum deles a viu. Até que Julichet tropeçou e Miriam se levantou bruscamente para evitar que ela caísse.
-Miriam! - gritou Julichet, num ato de espanto e alegria.
-Ah, oi Ju. - Miriam ficou meio sem graça diante de tamanho grito dado pela irmã. A essa altura, Miriam já havia ajudado Julichet a se levantar, Hugo e Joana estavam na porta de casa, e Robson e a esposa não sabiam se estavam mais assustados com o grito da filha ou com a aparição repentina de Miriam.
-Filha! Quanto tempo! Joana, me empurra! - Hugo quebrou o silêncio.
-Pai! Mãe! - Miriam saiu correndo em direção a eles, e abraçada à cadeira do pai e à mãe, chorava copiosamente.
Depois de uns cinco minutos ali, Julichet não conteve a curiosidade.
-Bem, você poderia pelo menos dizer porque apareceu do nada? Já não estragou demais a vida dos seus pais? O país inteiro, inteirinho, se mobilizou porque "a priminha do presidente sumiu", quando nós sabemos que você simplesmente fugiu, e agora você aparece aqui e fica aí chorando como se fosse inocente? Ah, Miriam, eu não acreditei quando li aquela mensagem... - Julichet teve que parar para enxugar uma lágrima - Mas esses dias eu fiquei pensando, você nunca mentiu para mim. Você sempre foi honesta. Bem, até o momento em que fugiu sem pensar nos outros. Você foi egoísta, desonesta, e muito, muito irresponsável.
-Julichet, eu posso sim ter sido egoísta, desonesta e irresponsável, mas não agora. Eu fui egoísta quando não contei que o Vitor havia quebrado as vidraças, só porque eu gostava dele e não queria vê-lo preso. Eu fui desonesta quando, mesmo sabendo que ninguém aprovava, eu aceitei o pedido de namoro do Vitor. E eu fui irresponsável quando tentei levar o Vitor para uma delegacia, o que colocou a minha vida e a vida do pai em risco, pois ele também sabia que o Vitor havia destruído as vidraças. Agora, dizer que eu não pensei em ninguém quando "fugi" é muito grave. Você nem esperou eu contar a verdade para despejar em cima de mim o que estava pensando, você preferiu acreditar numa mensagem que nem fui eu que mandei do que ouvir o que eu tinha a dizer.
-E o que a moça tem a dizer? - Robson parecia muito estressado com tudo aquilo.
-Vou realmente resumir a história. Eu saí com o Vitor, não sei onde ele pretendia ir, e tentei fazer com que ele fosse para uma delegacia, mas ele descobriu, me levou para um galpão, me disse que ia me matar e matar o pai, depois foi lá no galpão falar comigo, eu estava amarrada lá. Ele me contou a vida dele, ele é bem revoltado porque acha que a separação dos pais e a morte do pai são culpa dele. Daí ele desistiu de me matar e, como a vigilância aumentou naquela área, nós saímos de lá e voltamos para cá. Pronto, resumi. Eu preciso ligar pro Giovane.
-E cadê esse moleque? - se pudesse, Hugo estaria de pé.
-Ele foi pra casa dele, pai. Pelo motivo que o senhor já deve imaginar: para não ser preso.
-E você sabe onde ele mora?
-Infelizmente não. Eu realmente contaria se eu soubesse, mas eu não sei.
-A gente procura por ele, filha. Nem que eu precise ir pra Marte!
-Pai, calma, não precisa ir atrás dele. Agora o mais necessário é pedir pro Giovane voltar à rotina.
-Bem pensado, Miriam. Pelo menos agora você pensa em alguém que não seja você nem esse Vitor bêbado.
-Julichet! Você não percebeu que sua irmã foi sequestrada? Você está agindo como se fosse tudo culpa dela!
-Não precisa me defender não, Rob. Desculpem, mas eu tenho que ligar pro meu primo.
-Não precisa não, Miriam. Eu já liguei pro meu noivo. Ah, falando em noivo, sabia que eu adiei meu casamento por sua causa? O melhor dia da minha vida, o dia para o qual eu mais me preparei, eu mais planejei, foi adiado. Mas por quê? Por que a mocinha deu pra namorar bandido e foi sequestrada. Avisem pro Giovane que eu estou em casa. - Julichet atravessou a rua pisando duro.
-Filha, volta aqui!
-Mari, não tem jeito, depois eu falo com a Ju sobre isso.
-Mas Robson, ela está sendo muito injusta. Vou fazer o seguinte: vou conversar com ela lá em casa e você fica aqui. Miriam, é muito bom te ver de novo, espero que essa revolta da Julichet não acabe com a amizade de vocês, que é tão linda.
-Ah, obrigada, Marielen. Também espero, acho que isso é só a raiva acumulada. Até logo então.
Marielen foi atrás de Julichet tentar acalmar a filha, enquanto Robson, Hugo, Joana e Miriam entravam em casa, para que ela tentasse resolver a situação.
-Pai, eu já disse, não sei onde o Vitor se enfiou depois que ele foi embora daqui. O senhor acha que eu encobriria o cara que me sequestrou, por amor?
-Você encobriu a destruição das vidraças.
-Ah, claro. Agora uma destruição de vidraças e um sequestro têm a mesma gravidade! Pai, escuta: eu só não contei nada sobre as vidraças pois achei que não teria importância diante da festa e do casamento, mas eu ia contar depois.
-Não, filha, não ia. Eu não convivi muito com você, mas sei que você ama esse rapaz a ponto de fazer tudo por ele.
-Até encobertar um crime, num país que eu estou ajudando a ficar mais livre?
-Até encobertar um crime.
-Ah, agora minha situação está pior do que o esperado. Minha irmã e meu pai achando que eu sou a grande culpada de tudo!
-Filha, eu não acho que a culpa é sua, eu só não tenho certeza de que você diz a verdade quando diz que não sabe onde ele está agora.
-Ah, a questão é confiança. Eu estava preocupada com o senhor! Preocupada com alguém que nem sequer confia em mim!
-Opa, opa! Que gritaria toda é essa? - Giovane entrou na sala justamente na hora em que Miriam começou a chorar - O que foi, Miriam?
-Giovane! - foi tudo que ela conseguiu dizer antes de abraçar o primo e cair no choro.
-A Miriam estava discutindo com o Hugo, Giovane. - Explicou Joana.
-Ah, que lindo, mocinha. Você não tem noção de quanto seu pai sofreu nesse tempo em que você não estava aqui. Acredita que nem na fisioterapia ele quis ir?
-Sério, pai? - Miriam agora parecia recuperada da raiva, depois do que Giovane disse.
-É, é sério filha.
-Pai! O senhor precisa da fisioterapia, e o senhor sabe disso.
-Tentei arrastar ele com cadeira e tudo pro carro, mas a força que ele tem nos braços é maior que a minha. - descontraiu Robson.
-Na hora eu não pensei, mas poderia usar meu cargo para obrigá-lo a ir, que tal?
-Não será mais necessário, Giovane. Agora minha filha está de volta e mais do que nunca eu quero voltar a andar, assim eu posso correr atrás desse tal de Vitor.
-Ah, falando nele, eu vim aqui para avisar que tem uma equipe procurando por ele, e Miriam, você tem alguma informação?
-Infelizmente ela não sabe nada, Giovane. - interferiu Hugo - Contou pra nós tudo detalhadamente e a única coisa que sabemos é onde fica o galpão, o que não significa que ele esteja ali por perto.
-Mas já é uma boa informação. Você tem pelo menos uma foto dele, Miriam?
-Acho que devo ter uma que eu tirei na prova das roupas, quer que eu vá lá no quarto buscar?
-Não, você acabou de ser libertada de um sequestro. Amanhã bem cedo vou passar aqui e quero que você esteja pronta, com a foto, para depor.
-Pode ter certeza que eu não vou encobrir esse crime só porque amo o Vitor. - Ela olhou para Hugo, mas depois sorriu, mostrando que não tinha mágoas.
-Você o ama?! - Giovane se assustou.
-Amo sim, por quê? Só porque ele me sequestrou não significa que eu o odeie. Não gostei de ser sequestrada, mas o perdoei por isso. É isso que se faz quando se ama alguém.
-Gente, vou ver se a Marielen conseguiu acalmar a Julichet, e vocês precisam descansar. Você vem comigo, Giovane? - Despediu-se Robson.
-Ah, vou sim. Até amanhã.
À noite, Miriam não conseguia dormir, e nas raras vezes que cochilou, teve pesadelos onde ela corria por uma floresta, até encontrar com Vitor, e quando ia abraçá-lo, percebia que era apenas uma miragem. Por mais de duas vezes acordou se sentindo sozinha. Não sabia se estava preparada para depor contra seu amado, mas sabia que era necessário para que a justiça que ela tanto defendia fosse feita. E Julichet? Será que a tinha compreendido? Decidiu que logo quando acabasse de depor iria falar com a irmã, tentar se explicar, não queria perder sua amizade por causa de algo que não foi culpa de nenhuma delas.
Giovane apareceu em sua casa às sete da manhã, acordando todos antes da hora habitual.
-Prima, eu avisei que ia passar aqui bem cedo.
-Mas não TÃO cedo, né Giovane? Eu não dormi essa noite e vou ter que depor com cara de zumbi. Se o delegado achar que o Vitor me transformou em zumbi, vou dizer que a culpa foi toda sua.
-Já pegou a foto?
-Já, peguei de noite, já que não conseguia dormir. Aqui está. Dá licença que eu tenho que me arrumar.
-Tente ser o mais rápida possível, por favor. Os repórteres estão quase descobrindo que você vai depor, e eu sei que você não quer isso. - ficou sem resposta, Miriam foi para o interior da casa.
-Giovane, o que faz aqui tão cedo? - Hugo apareceu de repente, mas já arrumado, como se estivesse indo passear no shopping àquela hora.
-Ué, Hugo, vai aonde com essa roupa a essa hora? Não me diga que vai acompanhar a Miriam, ela já é maior de idade e...
-Não, Giovane. Eu vou conversar com minha outra filha, que por sinal é sua esposa, ou noiva, não sei, e depois vou na fisioterapia, por isso a calça de moletom. Não se preocupe comigo. - Hugo era grato a Giovane por tudo que ele estava fazendo por suas filhas, mas agora, depois do sequestro de Miriam, achava que elas estavam expostas a uma visibilidade muito grande e à qual não estavam preparadas, então ficava sempre tenso, preocupado.
-Ah, sim. Quando a Miriam acabar, nós dois vamos falar com ela. Espero que a mãe dela tenha conseguido acalmá-la.
-Porque o futuro marido não fez isso, não é, meu caro?
-Hugo, não é hora nem lugar para falarmos disso. Tenho um compromisso muito grande com minha prima agora e não pretendo me estressar antes dele.
-Demorei muito? - Miriam apareceu totalmente transformada. Sua "cara de zumbi" deu lugar a um rosto lindo, graças à maquiagem, e seu pijama deu lugar a um lindo vestido, até os joelhos, para dar um ar mais formal.
-Não, você está linda, prima!
-Gi, não gosto quando você me chama de prima, e você sabe disso, não sabe? Pai, acordado a essa hora?
-Vou visitar sua irmã e depois tenho uma sessão de fisioterapia. Acredito que volto antes de vocês.
-Ah, achei que tinha acontecido alguma coisa. Fala pra Ju que eu sinto muito, ok?
-Vamos? - Giovane estava atrasadíssimo e fazia questão de demostrar a irritação com Hugo. Como um sogro antes tão bom se tornou alguém tão egoísta? Talvez fosse apenas o estresse pelo sequestro de Miriam, tomara que fosse.
Chegaram meia hora atrasados, mas o delegado aparentou estar acostumado a isso. Vítimas de sequestro devem ser bem lentas para acordar mesmo. O depoimento correu como previsto. Miriam contou tudo. Desde o incidente com as vidraças até o dia anterior, quando chegou em casa e se separou de Vitor. Também entregou a foto, mas não pôde evitar que ela fosse exibida em rede nacional com as palavras "procurado, recompensa por qualquer informação".
-Não acredito que você assumiu pro delegado que amava aquele cara, Miriam!
-Você queria que eu dissesse o que? Que o odeio? Não! O que eu sinto por ele é amor, desde quando nós dançamos na noite de formatura e ele implicou com o meu vestido, até hoje! E se você não aceita isso, me desculpe, mas eu também não aceito o fato de você não ter ido ajudar sua futura esposa desde que eu cheguei.
-Não é fácil para mim, está bem?! Minha prima foi sequestrada por um cara que ela AMA! Ama! E depois ela volta do nada, jogando fora meus esforços para achá-la. Então minha noiva fica revoltadíssima porque nós tivemos que adiar nosso casamento e entra em crise porque acha que não vai caber mais no vestido. Por quê? Porque ela está grávida. Além dessa informação, ainda vem meu sogro me culpando por não ajudar minha esposa, e agora você! Como se eu não me importasse! Mas vocês não estão pensando em como é difícil governar um país, com uma noiva em crise e a família dela te pressionando, vocês estão pensando apenas em si mesmos! Primeiro a Julichet não pensou em como era para mim, adiar um evento daquele tamanho, depois seu pai e você vêm me cobrar por não ajudá-la! Aqui está o dinheiro para o táxi que você vai pegar logo ali, eu preciso relaxar.
-Giovane, volte aqui! Como assim a Julichet... grávida?! - Miriam ficou chocada com a explosão do primo. Realmente ele não estava psicologicamente preparado para aquela situação, mas Julichet estava grávida, ela seria tia! Precisava ver a irmã.
Quando pagou o táxi e desceu em frente a casa de Julichet, Miriam ainda não havia compreendido tudo o que Giovane falou. Ainda não acreditava que aquilo estava sendo tão difícil para ele, e era tudo culpa dela. Julichet apareceu na porta após a campainha ser tocada três vezes. Miriam nunca tocava a campainha da casa de Julichet, mas isso era quando elas eram amigas. Ao ver Julichet, Miriam paralisou. Tudo passou por sua mente. O estresse causado pelo casamento adiado, o filho que ela estava esperando. Tudo. O que ela nunca imaginaria era que sua irmã pulasse em seu pescoço e a abraçasse.
-Miriam! Desculpa por tudo o que eu falei ontem! Estava estressada demais! Senti tanto sua falta, minha irmã!
-Oi Ju! Também senti sua falta!
-Entre, por favor! - conforme Julichet abria espaço para Miriam entrar, ela imaginava a irmã dali uns meses, com a barriga já crescida, casada ou não. - O Giovane não estava com você?
-Bem, Ju, estava sim, mas...
-Mas...? Aconteceu alguma coisa? - Miriam percebeu que Julichet ficou tensa, pronta para mais um baque.
-Não foi nada não, Ju. Ele só ficou um pouco estressado e explodiu comigo, mas acho que é normal para alguém que tem que administrar um país e uma noiva grávida, não é mesmo?
-Ele te contou? Falei pra ele que queria que nós contássemos juntos para a família toda.
-Não o culpe, Ju. Ele não estava medindo as palavras quando disse isso.
-E onde ele está agora?
-Para ser bem sincera com você, não sei. Ele disse que precisava relaxar, foi embora com o carro e me deu dinheiro para o táxi.
-Um presidente estressado vagando pelas ruas. É tudo o que os repórteres querem.
-Como assim?
-Quando você sumiu, ele começou a andar sem rumo pela cidade, é isso que ele sempre faz quando se sente sob pressão.
-Ah... - Miriam não conseguia evitar a vergonha por ter causado tanto estresse com seu "sumiço".
-Mas você não veio aqui para falar de coisas ruins, não é? Estou com muitas saudades e quero aproveitar muito bem o tempo que tenho com você agora.
-Ju, também senti muito sua falta, estou super triste por ter estragado seu casamento, mas será que não seria melhor ir atrás do Gi? Daqui a pouco ele vai ser deposto por ficar andando por aí.
-Não, não. Me dê só um minutinho que eu vou ligar pros seguranças. Eles já sabem onde ele costuma ir e vão levá-lo pro escritório. Já me acostumei com isso.
-Julichet, você cresceu muito nesses últimos dias. Há uma semana atrás você era apenas uma garota que tinha acabado de entrar pra vida adulta, noiva do presidente, mas que encarava tudo isso com a alegria de uma adolescente, que traficava livros pelo simples prazer de obter conhecimento, e hoje eu vejo uma mulher, futura mãe de uma criança, responsável pela família que está construindo, e acostumada às responsabilidades e crises do futuro marido. Mas eu sinto que tamanho crescimento, tamanha maturidade, foi tudo por causa do sofrimento. Sofrimento causado por causa do sumiço da sua irmã. Estou errada?
-Me dói dizer isso, mas não. Você está absolutamente certa. Ver que você sumiu e que estávamos todos expostos a isso me tornou blindada a todas as preocupações de adolescente, e descobrir que estava grávida, me tornou ciente de quem eu era e do que tinha que fazer. Sua volta me revoltou muito, porque eu pensei que isso tinha me prejudicado, mas não, isso prejudicou mais a você do que a qualquer um.
-Ah, Ju... - Miriam não conseguiu mais conter as lágrimas.
-Não precisa chorar, Miriam. Já passou. Tudo são águas passadas, sabe? Foi isso que eu me disse quando você voltou e eu tinha vontade de me explodir em lágrimas. Pode perguntar pra minha mãe. Quando meu pai voltou da sua casa, eu estava mais controlada, mas logo que eu vim pra casa, eu desabei. Nada que minha mãe fizesse ou falasse melhorava minha situação, até que eu comecei a repetir essa frase pra mim mesma, e isso melhorou. - Julichet sentou-se ao lado de Miriam para consolá-la.
A semana acabou e Miriam conseguiu voltar à rotina. Muitos pensavam que ela não conseguiria, pois poderia ter medo de ser sequestrada novamente, mas ela tinha certeza de que Vitor não era esse tipo de pessoa, e que ele não seria burro o bastante para chegar perto dela e ser preso imediatamente, já que Giovane deixava sempre dois seguranças junto a ela, na porta da biblioteca, no seu carro, ou na porta de sua casa.
Depois de dois meses de procuras por Vitor, Hugo recebeu uma carta sem remetente, mas que certamente era dele.
"Boa tarde, Hugo. Não sou bom em cartas nem quero deixar esta aqui muito longa. Primeiro quero pedir perdão por tudo o que fiz. Você estava certo em não aprovar meu relacionamento com Miriam. Depois quero dizer que deixarei todos vocês em paz, porque sei que se eu aparecer, o estresse será grande para todos, inclusive para a Miriam, que tanto amo. Não deixe que tudo o que aconteceu te transforme num homem rancoroso, desconfiado e estressado, pois é isso que eu vi no seu rosto quando o anúncio da gravidez de Julichet foi transmitido em rede nacional. Onde estou? Desculpe, mas minha promessa de distância depende do segredo nessa pergunta. Ah, e por favor, não deixe o Giovane ler essa carta. Ele vai querer rasgá-la em pedacinhos, mas eu prefiro que ela fique inteira."
Imediatamente, Hugo mostrou-a a Miriam, que ficou feliz em saber que Vitor estava bem, e tentou convencer o pai a confiar naquelas palavras.
-Pai, eu conheço o Vitor como ninguém aqui. Ele nunca mandaria uma carta dizendo que vai manter distância e depois viria me sequestrar.
-Ele te pediu em namoro e te sequestrou. Não é pior?
-Ele me sequestrou porque se sentiu ameaçado, o senhor sabe disso muito bem, não é? Não quero discutir sobre isso.
-Ótimo, porque eu também não quero. - Hugo virou a cadeira - Me lembrei que tenho uma fisioterapia extra hoje.
Miriam sabia que seu pai estava mentindo. Desde que voltara do sequestro, era ela quem administrava o calendário de fisioterapias, e sabia que não haviam essas "sessões extra", mas decidiu ficar calada. Realmente seu pai estava se tornando um homem rancoroso, desconfiado e estressado, e só de pensar nisso ela pensou na sua parcela de culpa nisso tudo, mas logo expulsou esse pensamento.
A gravidez de Julichet estava indo bem. Pelo menos até os cinco meses. Um dia, quando estava indo para mais um dia de trabalho na biblioteca, ela passou mal ao descer do carro e teve de ser amparada pelos seguranças de Miriam que estavam por ali. Outra vez, estava descendo a escada e a queda só não foi tão grande porque ela estava no último degrau. Quando Giovane, apesar dos protestos, a levou para o hospital, o médico recomendou que ela ficasse de repouso.
-Mas eu não posso deixar a biblioteca! Meus alunos precisam de mim!
-Ju, eu tenho certeza absoluta de que as outras professoras podem muito bem te substituir. A Miriam vai dar um jeito, fique tranquila. Nosso filho é o mais importante.
-Eu sei, mas o que eu vou fazer em casa? Ver televisão o dia inteiro, depois ler, depois ver televisão, ver você chegar, e então dormir? Esses não eram meus planos para a gravidez.
-Eu sei, Ju, eu sei. Mas se você passar mal novamente, tanto você quanto nosso filho estarão em perigo. Sua mãe vai ficar com você, então acredito que ela vá te ajudar a passar por esse repouso.
-Quatro meses em repouso. Que ótimo.
-Veja pelo lado bom: você terá tempo suficiente para dormir as noites que depois você terá de ficar em claro para cuidar do bebê.
-Você tem o incrível dom de fazer piadinhas sem graça quando eu estou estressada, não é?
-Assim eu estresso você mais ainda, e você fica linda estressada.
-Por favor, se vocês não possuem nada de mais importante para fazer, me deem licença que eu tenho outros pacientes. - interferiu o médico, pensando que consultórios não eram o melhor lugar para uma discussão entre marido e mulher, principalmente se eles fossem o presidente e a primeira-dama.
-Ah, desculpe doutor. Eu e a Ju já estamos indo.
Após saírem do consultório, eles foram para a casa de Miriam, já que a de Julichet estava bagunçada com a reforma. Seus pais estavam ampliando alguns cômodos pois sabiam que, em alguns meses, a filha se casaria e iria morar na casa presidencial com Giovane.
-Como foi com o médico? - Miriam estava preocupada com o estado da irmã e do sobrinho/primo de segundo grau.
-Tudo bem, apesar de que ele me proibiu de dirigir e me recomendou, quer dizer, praticamente me obrigou a ficar de repouso.
-Julichet, não exagere. Ele só disse isso porque é o melhor a ser feito.
-O Giovane tem razão, Ju. Ele é médico e sabe que ficar em repouso vai evitar que você passe mal. Talvez seja apenas estresse e você possa voltar à sua vida normal depois de uns meses.
-Espero que seja isso mesmo, Miriam. Falando nisso, por que o pai estava zanzando pelo centro? Parecia estar procurando alguém.
-O pai estava no centro? Ai meu Deus! Ele está procurando o Vitor, é isso. Desde que recebeu aquela carta, está paranoico com a ideia de encontrá-lo num momento de descuido e fica andando pela cidade à procura dele depois das sessões de fisioterapia.
-Que carta? - Giovane e Julichet questionaram quase em uníssono.
-Ah, eu estava pensando alto, desculpem. Não deveria ter dito isso.
-Não, não, mocinha. Agora você vai contar em detalhes que carta é essa que você falou e o que ela tem a ver com a procura do seu pai pelo Vitor. Ou então eu vou acionar um grupo para procurá-lo.
-Não, Gi! Não faça isso, por favor. Eu me sinto na obrigação de proteger o Vitor, e você sabe muito bem disso. A carta é uma que meu pai recebeu uns meses atrás, em que o Vitor dizia que estava bem e que manteria distância, mas ele pediu que você não ficasse sabendo dela, primo, por isso não contei a ninguém.
-Obrigada pela confiança, Miriam! - Julichet estava realmente surpresa com o segredo que sua prima escondia.
-Desculpe, Ju, mas eu sei que, assim como eu confio em você e você confia em mim, você confia no Giovane, e acabaria contando para ele. E para que não houvesse segredos entre vocês dois, preferi criar um entre nós duas.
-O argumento da Miriam parece convincente, mas a questão é: o remetente da carta. Se ela foi enviada pelo sistema postal, possui um remetente, ou seria cancelada. Você possui o envelope?
-Não, Giovane. A carta foi deixada num envelope branco aqui na frente da nossa casa, e todos aqueles que estavam na rua, quando questionados, disseram que foi uma mulher que deixou-o aqui. Meu pai fez um retrato falado dessa mulher, e quando vai procurar pelo Vitor, procura por ela também.
-Ótimo. O que você acha de uma procura por essa tal mulher misteriosa? Podemos fazê-la não em rede nacional, como foi feito com o Vitor no começo, mas internamente, nas delegacias, para ver se ela é encontrada, e através dela, chegaremos ao Vitor.
-Muito obrigada pela sugestão, Giovane. Percebi que você realmente não quer que eu fira meu "juramento de proteção" ao Vitor, mas alguma coisa me diz que em breve, muito em breve, o Vitor vai aparecer, mesmo sem que procuremos por ele.
-Então você quer dizer que ele vai se entregar? Será que não está vendo filmes demais? - Julichet interveio, achando tudo aquilo muito estranho.
-Não, Ju. Eu apenas estou sentindo como se ele fosse aparecer. Não voluntariamente, mas aparecer do nada. Não me pergunte detalhes, é apenas um sentimento, não uma visão detalhada do futuro.
-Se você prefere assim, então tudo bem. Não vamos fazer buscas por ninguém, e vamos esperar um tempo. Se o Vitor não aparecer, muito menos essa mulher misteriosa, vamos começar uma busca por eles, ok?
-Ok. Mas então me dê um prazo. O nascimento do bebê será o último dia da minha espera, então depois que seu filho ou sua filha nascer, pode começar a procurar quem você quiser.
-Falando em filho ou filha, descobrimos hoje que será uma menininha, e decidimos que se chamará Ellie. - Julichet já estava empolgada com a ideia de ser mãe novamente e parecia ter esquecido do repouso.
-Ellie não era o nome da... - Miriam sabia que já tinha ouvido aquele nome em algum lugar.
-Nossa avó. Sim. O Giovane, assim que soube que era uma menina, propôs esse nome, pois sabe que ela foi uma mulher muito lutadora, que driblou as leis e se escondeu dos guardas do governo que vieram para buscá-la aos dezessete anos. Já pensou se ela tivesse ido? Teria sido esposa do avô do Gi e talvez não tivesse nosso pai. Pena que morreu tão cedo. - Julichet se referia ao acidente que a avó sofreu. Ela trabalhava numa mina, vestida de homem, pois foi assim que driblou o governo, ao lado do marido, mas, grávida, foi soterrada após uma explosão. Apenas o marido sobreviveu.
-Nosso pai vai ficar feliz da vida ao saber que vocês vão homenagear a mãe dele! Quando ele voltar, essa notícia vai tirar um pouco o foco do Vitor.
-Sim, Miriam. Por isso viemos aqui. Também por causa da reforma, mas foi por causa dessa notícia que fizemos questão de vir aqui. - Giovane parecia animado com a ideia de ficar na casa da prima. Talvez medo por ela estar sem os seguranças? 
-Giovane, porque você não tira os olhos da porta? Temos alarmes se alguém arrombá-la, e tenho certeza que o ato por si só já faz um barulho capaz de nos fazer perceber o que está acontecendo. Não é só porque  a partir de hoje eu estou sem meus seguranças que estou correndo mais perigo.
-Eu não estou olhando a porta, estou apenas observando a decoração, e pensando no futuro quarto da nossa filha. Que cor você prefere, Julichet? Roxo, rosa, ou até mesmo um amarelo bem pastel? - Giovane tinha a incrível capacidade de mudar de assunto do nada, mas Miriam e Julichet preferiram fingir não notar a mudança repentina.
-Eu acho que temos que ir embora. Preciso falar com meus pais sobre a Ellie, e ver como andam as obras. Miriam, obrigada por nos receber aqui, e quando o pai chegar, me avise que eu virei para conversar com ele.
-Tudo bem. Obrigada pela visita, até mais!
Ao darem a notícia a Hugo, Julichet e Giovane não esperavam que ele tivesse um ataque de raiva. Tinham se esquecido que a mãe o abandonara para trabalhar e ele ficara traumatizado desde aquele dia. Tinham esquecido também que esse "pequeno" detalhe seria a gota d'água, pois ele andava muito tenso, prestes a explodir. Assim que terminou de falar, ou melhor, gritar, Hugo começou a chorar e Julichet precisou ir amparar o pai. Ao analisarem a situação, Giovane e Julichet reconheciam uma coisa: aquele que seria avô de sua filha não estava preparado psicologicamente para nada. Foi tudo muito novo e repentino para ele.
E foi isso que levou Giovane a propor uma temporada num "spa" para o sogro, que Julichet recusou com todas as suas forças. Seu pai poderia até estar estressado, mas ficar num lugar fora da realidade para relaxar seria como colocar um leão num jardim. Ao voltar à sua vida, ele voltaria ao ponto de início.
Todo o estresse de seu pai acabou estressando Julichet também. Como era sua vizinha, ela monitorava os horários do pai enquanto Miriam trabalhava, e percebeu que ele ficava cada vez mais tempo fora de casa. Será que sua esposa não tinha conversado com ele? Talvez não, ele estava tão antissocial atualmente...
Mas um dia ela percebeu que algo estava muito errado. Hugo foi à fisioterapia no horário habitual, pela manhã, voltou para casa no horário exato, como se tivesse se cansado de procurar por Vitor, mas depois de cinco minutos, de roupas escuras e uma pequena bolsa no colo, saiu de casa e foi em direção ao ponto de táxi.
Julichet resolveu ignorar as tonturas que estava sentindo e que vinham se agravando há alguns meses e as recomendações do médico, e foi em direção à porta. Era agora ou nunca. Ela se sentia no dever de saber onde o pai iria. Pegou as chaves do carro e se dirigiu à garagem. Quase caiu ao descer as escadas, mas se manteve forte e saiu com o carro. Quando estava na rua, viu que o táxi em que o pai entrou estava saindo. Resolveu segui-lo, mas a uma distância segura. 
Do nada, uma mensagem chegou ao seu celular. "Oi amor! Hoje é feriado e estou indo mais cedo pra casa, o que acha de ir ao parque?" Julichet teria que voltar pra casa. Giovane não poderia nem imaginar que ela estava saindo, então respondeu à mensagem e guardou o carro na garagem, indo para a sala e esperando seu marido para um passeio no parque, enquanto seu pai fazia algo muito estranho.
-Você está muito estranha hoje. Aconteceu alguma coisa? - Giovane percebeu que Julichet não estava prestando atenção ao passeio - Parece que você está em algum outro lugar.
-Ah, desculpe. Estava apenas... pensando na Ellie.
-Na Ellie?
-Sim, depois que seu mandato acabar, nós vamos morar onde? Nossa filha vai ficar mudando de casa toda hora?
-Não é verdade que você estava pensando nisso. Você não consegue nem recitar um poema olhando para o horizonte, como está agora, quanto mais dizer a verdade.
-Você está me acusando de mentir, é isso?
-É, por quê? - Giovane viu que era tudo cena, que Julichet estava tentando mudar de assunto, e resolveu enfrentá-la.
-Tudo bem. Talvez eu não estivesse mesmo pensando na Ellie ou no quarto dela. Estava pensando no meu pai. Ele pegou um táxi e estava com atitudes muito suspeitas hoje. - ela ocultou o fato de que quase descobriu onde ele iria.
-Por que você não me disse? Poderíamos ter ido atrás dele! Será que ele descobriu onde o Vitor se escondeu?
-Acho meio difícil. Meu pai não consegue manter muitos segredos, e isso chegaria a nós, além de que, se ele realmente tivesse descoberto, teria te dito para logo prender o rapaz.
-Realmente, você tem razão...
O resto do dia correu normalmente. Julichet ligou para Miriam, com a desculpa de planejar o chá de bebê, mas na verdade queria saber se o pai já estava em casa, e obteve uma resposta positiva. Ela precisava saber onde ele estava indo. Mas se perguntasse a ele, transpareceria que estava o observando, então decidiu observá-lo no dia seguinte, e dessa vez, segui-lo de verdade.
Tudo correu como planejado. Giovane saiu para trabalhar, seu pai foi à fisioterapia, e como no dia anterior, voltou para casa, trocou de roupa e pegou um táxi. As tonturas de Julichet estavam mais fortes ainda, como se tentassem fazer com que ela não fosse atrás do pai, mas ela não desistiu. Saiu da garagem silenciosamente, avistou o táxi do pai e foi fazendo o mesmo trajeto que ele. Percebeu que estava numa região da cidade que não conhecia. Era muito longe de onde morava e mais longe ainda de onde morou quando criança. Uma área de galpões abandonados. Mas era isso! Miriam ficou num galpão quando foi sequestrada, seu pai havia achado o cativeiro! Ou será que Vitor morava por ali? Uma dor muito forte na cabeça fez Julichet diminuir a velocidade do carro. O táxi fez uma curva e foi para a cidade vizinha. Outra dor na cabeça. Tudo rodava. O táxi sumiu. Julichet entrou numa rua quase deserta, onde imaginou ser o lugar mais provável para alguém que queria se esconder, então seu pai estaria ali. Mas não estava. Parou o carro e sentiu tudo escurecer. Ali estava ela. Numa cidade desconhecida, numa rua desconhecida, sozinha, no carro, sem que ninguém soubesse que ela estava ali. Procurou o celular nos bolsos. Havia esquecido em casa.
Depois do que pareceram séculos, Julichet se sentiu despertar. Mas ela não estava acordando do desmaio simplesmente porque seu corpo decidiu fazê-lo. Olhou para o lado, viu o vidro da janela do carro quebrado. Ótimo, um ladrão. Era tudo que ela precisava. De repente uma voz familiar.
-Julichet? Você está bem? Pode me ouvir? - ela se lembrava de ter ouvido aquela voz algumas vezes. Seria seu pai? Não, ele tinha a voz mais rouca que aquela. Giovane? Sem chance, ele já estaria desesperado, e não calmo, como aquela voz aparentava estar.
-Estou. Ai, quem quebrou meu vidro? - sua cabeça ainda doía.
-Fui eu. Pensei que você precisaria de um pouco de ar.
De repente, tudo se encaixou rapidamente. Ela estava ali porque estava perseguindo seu pai, e acabou indo parar numa rua desconhecida. E aquela voz... ela se lembrava de tê-la ouvido em sua versão bêbada nas festas que dera. Lembrava-se de ter odiado o dono daquela voz por ter a separado de sua irmã. A voz mais procurada do país estava tentando ajudá-la a obter ar.
-Vitor?! - aquilo saiu mais como uma afirmação do que como uma pergunta, e Julichet finalmente reuniu forças para olhá-lo. Seus olhos verdes estavam cobertos com óculos de armação clara, e seus cabelos estavam longos. Longos o suficiente para esconder que ele era a pessoa mais procurada do país.
-Sim, sou eu. Você me achou. O que veio fazer aqui?
-Vim atrás do meu pai. Ele está te procurando há tempos, e eu vim ver o que ele estava fazendo de táxi, mas perdi o táxi, e vim parar nessa rua. Aí me deu tontura e eu fiquei aqui.
-Só uma pergunta: você está grávida de quanto tempo?
-Sete meses e meio. Por quê?
Vitor abriu a porta do carro. - Acho melhor irmos ao hospital. Venha comigo.
Foi aí que Julichet percebeu. Ela estava tendo um sangramento. Não teve tempo nem de pensar. Quando percebeu, Vitor já a estava carregando para outro carro - que ela imaginava ser seu - e a levando ao hospital.
-Preciso avisar o Giovane.
-Julichet, você sabe que eu já estou numa encrenca muito grande por você ter me achado, e estou correndo um grande risco ao aparecer no hospital, e ainda quer ligar para o Giovane? Quando você souber o que vai acontecer com seu filho você liga para ele. Agora não, por favor.
-Tudo bem. Eu entendo que você está se sacrificando por mim. Foi muita coincidência logo você me achar lá no carro.
-Eu percebi que estou ligado à sua família por algo muito forte. Eu amo sua irmã, e mesmo tendo tentado matá-la, sei que esse sentimento é verdadeiro e eterno. E agora estou te ajudando. Há alguma coisa nos ligando. Você me entende?
-Sim, o Giovane sempre tenta te colocar como vilão, mas eu posso ver que a Miriam amadureceu depois que te conheceu. Foi pelo sofrimento, mas se ela não tivesse te namorado, simplesmente ainda seria uma adolescente. E isso nos une. Parece que nós temos uma dívida com você. Por ter salvado a vida da minha irmã.
Vitor não esperou Julichet acabar de falar. Estacionou o carro e voltou com uma cadeira de rodas.
Já no hospital, o médico estranhou a presença da primeira-dama num hospital público, mas fez o atendimento sem questionamentos.
-Bem, seu sangramento não foi sério, mas sua filha não sobreviverá os nove meses. E considerando que você tem tonturas frequentes, o que pode causar acidentes, eu recomendaria um parto.
-Agora?
-Sim. Bebês que nascem com sete meses de gestação podem muito bem ser perfeitos. E é esse o caso da mocinha que você carrega aí. Se o rapaz que te trouxe aqui não tivesse sido rápido, talvez ela morresse.
-Tudo bem, mas eu tenho que avisar meu marido e ir para outro hospital. Nada contra o sistema público, mas não quero ocupar uma vaga.
-Tudo bem, vamos providenciar um telefone.
Depois de ter avisado Giovane, - e ter respondido um interrogatório - Julichet foi a um hospital particular fazer o parto. Mas antes disso, quando estava na sala de espera, aguardando a ambulância que a levaria, a recepcionista a entregou um bilhete, de Vitor.
"Sei que está tudo bem, e que você será transferida para fazer o parto. Por isso fui embora. Posso não ter sido reconhecido aqui, mas seu marido me reconheceria mesmo assim como estou. Você sabe onde me encontrar. Boa sorte."
Ao chegar ao hospital, Julichet viu que todos estavam à sua espera. Giovane veio até ela com um olhar acusador, mas que não conseguia esconder a felicidade pelo nascimento da filha.
-Como você foi parar naquele hospital? O médico me disse que um rapaz de cabelos longos te levou até lá. Quem é esse rapaz?
-Um amigo da Miriam que me reconheceu, Giovane. Só isso. Eu passei mal no carro, ele me reconheceu e me levou ao hospital. 
-Mas você estava em outra cidade, dirigindo, e sem avisar ninguém. Tem alguma coisa muito estranha acontecendo...
-Sabe o que está acontecendo? Você não acredita em mim! Você acha que eu fui atrás de outro homem, e é por isso que está fazendo todas essas perguntas! - Julichet perdeu a paciência e começou a gritar - Eu estou prestes a fazer um parto e você fica me acusando!
-Ju, você sabe que não é assim. Eu estou preocupado com você. Esse rapaz pode muito bem ser alguém que queria tirar dinheiro de você e só te ajudou por isso.
-Eu sei quem é "esse rapaz"! Já disse que era um amigo da Miriam, não disse?
-Então você sabe o nome dele?
-Não, não sei. Só sei que já o vi em algum lugar e sei que ele e a Miriam eram amigos, agora, se você quer o nome dele, é melhor perguntar à Miriam.
Foi nessa hora que uma enfermeira chamou Julichet para prepará-la para o parto, e ela nunca foi tão grata por ter se separado de Giovane. Se ele continuasse aquela conversa, ela acabaria contando que fora Vitor quem a ajudara. O médico se atrasou, e enquanto esperava, ela pediu para falar com Miriam.
-Ju, a enfermeira me disse que você me chamou, e eu vi você discutindo com o Giovane, e imagino que nossa conversa tenha o mesmo assunto que a sua.
-É isso mesmo. É sobre o Vitor.
Miriam gelou só de ouvir aquele nome - O Vitor?!
-É, ele mesmo. Mas diminua o volume dessa voz, menina. Se o Giovane ouvir, ele me mata.
-Mas o que o Vitor tem a ver com sua situação atual?
-O pai estava procurando por ele, eu segui o pai, me perdi, fui parar numa rua, desmaiei no carro, e o Vitor me achou e levou ao hospital. Foi isso. Se ele não tivesse aparecido, não sei o que seria de mim ou da Ellie.
-Ele te achou? Como ele estava?
-Com cabelos longos, de óculos. Mas estava bem, numa rua da cidade vizinha. E me deu um bilhete. - disse ela, entregando o bilhete a Miriam, que logo reconheceu a caligrafia.
-Ju, muito obrigada! Não sei nem como te agradecer por isso. Eu estava com tanto medo do que poderia ter acontecido com ele... Depois você me leva lá?
-Agora com a Ellie vai ficar um pouco difícil de sair sem o Giovane perceber, mas posso tentar sim.
-Você não lembra o endereço?
-Não, não vi o nome da rua, desculpe.
Nessa hora a enfermeira apareceu na porta.
-Senhorita, eu acho melhor se retirar. Tenho que preparar a primeira-dama para o parto.
-Sem problemas. Até logo, Ju! Boa sorte.
O parto foi um sucesso. Mesmo algumas semanas antes do esperado, Ellie nasceu perfeitamente saudável. Alguns dias depois, já em casa, Julichet recebe uma ligação.
-Alô?
-Julichet? É você? - ela logo reconheceu a voz. Surpreendeu-se pelo fato de Vitor ter ligado tão rapidamente. Imaginou que ele demoraria mais.
-Sim, sou eu. 
-Podemos conversar? O Giovane está em casa?
-Não, ele está trabalhando. Estou sozinha com a Ellie aqui. Sobre o que quer falar?
-Foi tudo bem no parto? E a Miriam? Como ela está? Há tanto tempo não a vejo...
-Foi tudo maravilhosamente bem, muito obrigada. E a Miriam está bem também. Contei a ela que você me encontrou, e ela quer muito te encontrar. Pediu que a levasse até aí. 
-Eu estava pensando em me encontrar com ela mesmo. Conversar, esclarecer as coisas. Mas é difícil aparecer por aí com o país todo me procurando. 
-Assim que a Ellie crescer um pouco mais, eu posso providenciar esse encontro de vocês. 
-Se você fizesse isso eu seria muito grato. Me senti tão mal depois que saímos do galpão. Mal pelo sequestro, por ter afastado vocês duas, por ter cometido tamanho crime, e também por ter sumido depois. Eu deveria ter me entregue à polícia. Sim, porque assim eu seria mais livre do que sou hoje. E teria contato com a sua irmã. 
-Vitor, posso te dar um conselho? Desabafar comigo não vai resolver nada. Você só vai acabar lembrando dos problemas. A Miriam está sozinha em casa. A mãe dela foi trabalhar e o pai está na fisioterapia. Você tem o telefone dela? Ligue lá, conte tudo. Conversem, não fiquem se lamentando pelo passado, planejem o futuro.
-Julichet, você é a melhor cunhada do mundo! Desculpe por atrasar seu casamento. Vou ligar para a Miriam sim. Até mais.
Julichet não poderia ter dado melhor conselho a Vitor. Assim que ouviu sua voz, Miriam não acreditou em seus ouvidos. Ela não imaginava como tinha sido difícil para Vitor se esconder durante todo aquele tempo.

Alguns meses antes

Vitor deixou Miriam em casa. Como poderia tê-la sequestrado? Como poderia ter sido tão horrível com a mulher que amava? Ele também não tinha as respostas para essas perguntas. Assim que viu como sua família ficara feliz em recebê-la de volta - exceto Julichet e Robson, que pelo visto a culpavam por tudo -, ele sentiu vontade de aparecer e pedir que o prendessem. Pedir que o recompensassem pela destruição que havia causado. Mas não apareceu. Não teve coragem. Pelo contrário, voltou para o galpão, onde pensou em se esconder, mas acabou se sentindo desconfortável ali. Não conseguiria ficar por muito tempo num lugar com tantas lembranças. Miriam não sabia, mas os grãos que estavam ali tinham sido trazidos por ele, e não abandonados. O galpão na verdade era a oficina de seu pai. Quando ele morreu, Vitor colocou os grãos ali para poder ter uma história para contar.
Resolveu procurar outro lugar onde se esconder. Precisava fazer isso rapidamente, antes que seu rosto fosse mostrado ao país inteiro. Resolveu procurar de madrugada. Após algumas horas andando, encontrou a casa perfeita. Em outra cidade, numa rua sem saída, uma casa pequena, mas ideal para aquilo que ele precisava: se esconder. Conversando com o proprietário, conseguiu alugar sem precisar de contrato. No dia seguinte, foi atrás de um bom disfarce. Já era procurado pelo país todo, então precisava ser rápido. Encontrou um par de óculos com armação clara que o fazia parecer outra pessoa. Decidiu não cortar o cabelo, para poder esconder o rosto. Comprou roupas e voltou para casa, antes que o descobrissem.
Seus dias passavam sempre da mesma forma. A casa tinha uma televisão, onde ele assistia o canal do governo, procurando por alguma notícia de Miriam, que costumava aparecer antes do sequestro. E foi num desses dias que ele assistiu o anúncio da gravidez de Julichet. Toda a família estava presente: Miriam, sua mãe, Hugo, Robson, Marielen, Giovane, e é claro, Julichet. Hugo parecia carrancudo, e Vitor se sentiu feliz AO ver Miriam bem. Sentiu saudades dela, e resolveu escrever uma carta. Para entregá-la, ele precisou pedir um favor à sua vizinha da frente. Uma senhora de 50 anos, que sabia quem ele era mas sabia também de suas origens. Era prima de sua mãe e prometera nunca entregá-lo à polícia. Foi ela que levou a carta á casa de Miriam e a deixou ali. A carta era para Hugo, e não para Miriam. Ainda não se sentia preparado para falar com ela. Preferiu mandar seu pedido de desculpas a Hugo.
A rotina o estava entediando. Já não aguentava mais viver à base da comida de sua vizinha (que não era lá essas coisas) e gastar seus dias vendo televisão. Na tentativa de ocupar a mente, pegara alguns livros emprestados, mas logo eles acabaram e Vitor se viu sem nada de útil para fazer da vida. Hugo nunca respondera sua carta, e ele se sentia um idiota por algum dia pensar que ele responderia. Era mais capaz que colocasse fogo na expectativa de queimá-lo também. 
Percebeu que sua vida agora girava em torno da televisão e se sentiu como aqueles aposentados que tanto criticara antes, quando era livre. Isso lhe doeu no fundo do peito. Tomou então uma decisão: se entregaria à polícia. Faria aquilo que nunca tivera coragem para fazer. Mas não faria por ninguém além de si mesmo. Sabia que seria um ato egoísta, mas não tinha ninguém por quem zelar, além de Miriam, e não podia ter contato com ela. A entrega seria a melhor forma de se libertar. Seria preso, mas mesmo assim mais livre do que estava.
Dois dias se passaram, e com eles a coragem para dar as caras numa delegacia. Não sabia de onde tirara a ideia de se entregar, e depois de pensar bem, a ideia nem parecia tão boa assim. Decidira ficar ali e esperar. Ainda não sabia pelo que esperava, mas deixaria o tempo dizê-lo. Sentia que algo mudaria e daria um novo ânimo à sua existência.
E foi assim que deixou-se viver pelos próximos meses. a esperança era o que o acordava a cada manhã. Começou a pensar que a novidade seria relacionada a Miriam, então ficava o dia todo assistindo ao canal do governo, esperando por um pronunciamento de Giovane ou coisa do tipo, mas o máximo que encontrava eram declarações sobre alguma lei nova que fora aprovada ou atualizações sobre a gravidez de Julichet. "Quem gostaria de saber quantos desmaios a garota teve?" chegou a pensar uma vez, mas se repreendeu por isso e percebeu que ela realmente estava em risco. Gostava de Julichet, apesar de saber que ela o odiava, e não desejava que ela perdesse sua menina - soubera disso através da televisão também.
A rua em que morava era a única tranquila da cidade - pensava ele - já que, como a capital do país era vizinha, o natural era que as outras cidades se tornassem grandes metrópoles também. Como era uma rua sem saída, não era usada nem para passagem de veículos, os poucos moradores quase não usavam seus carros e a maior parte da rua era ocupada por uma fábrica que ele não sabia do que era, mas que não trazia muito movimento também. Essa tranquilidade podia ser uma ótima oportunidade para meditar e pensar sobre a vida, mas, em meses - pelo que contara eram quase quatro completos -, qualquer carro que passasse já era motivo de espanto. Poderia muito bem ter sido descoberto ou então seria apenas um turista que se perdeu.
Lembrava-se de, numa das raras vezes que saiu de casa, ter encontrado uma mulher perdida na rua. Era americana e estava ali para conhecer a capital, mas não sabia por onde ir. Deu graças a Deus pela falta de informação da estranha e lhe forneceu as direções, torcendo para que ela não o entregasse quando visse seu rosto no noticiário - se ainda estivesse sendo publicado, é claro.
Então numa tarde ouviu um barulho estranho. Parecia o motor de um carro, e ao olhar pela janela, viu que era de um bom carro. O que uma pessoa tão rica estaria fazendo ali? Percebeu que o carro foi diminuindo de velocidade e parou em frente à casa de sua prima. Quase batera no carro dela, que estava estacionado por ali. Decidiu esperar para ver quem sairia de lá. Ficou uns vinte minutos olhando para o carro, mas nada acontecia. E foi então que percebeu que quem estava ao volante era uma mulher - considerando os longos cabelos presos num rabo de cavalo - e estava dormindo. Ou desmaiada. Pela posição em que se encontrava, parecia ter desmaiado. Talvez tivesse passado mal e parado na primeira rua que encontrou. Então atravessou a rua e, quando ia bater à porta da vizinha para que ela socorresse a mulher - não podia se revelar nem numa situação dessas -, percebeu quem era. Mesmo deitada sobre o volante, reconhecera aquele rosto tantas vezes visto durante os últimos meses.
O que Julichet estaria fazendo numa rua daquelas? E ainda por cima, sozinha? Sua gravidez era de risco, ela nunca poderia ter saído dirigindo sozinha. Concluiu então que Giovane não sabia que ela estava por ali, e por causa disso resolveu ajudá-la. Este era o carro pessoal, então os vidros não seriam blindados - ele era usado apenas no bairro em que moravam -, e Vitor decidiu quebrar um deles. O máximo que aconteceria seria disparar o alarme, e isso ajudaria a acordá-la.
Assim que jogou a pedra - com todo o cuidado para não atingir Julichet -, Vitor se arrependeu. E se ela resolvesse entregá-lo? Mas agora não tinha como voltar atrás. Julichet já estava acordando, e assim que reconheceu sua voz, o espanto estava estampado em cada centímetro de seu rosto. De repente percebeu que ela estava tendo um sangramento. Ao perguntar, soube que ela estava já num momento avançado da gravidez, e decidiu levá-la ao hospital. Aparecer num hospital com o carro pessoal da primeira-dama não seria muito conveniente, então resolveu usar o carro de sua prima, de que tinha as chaves.
Após deixar Julichet no hospital e se certificar de que ela ficaria bem - o médico lhe dissera que fariam um parto de emergência -, Vitor resolveu voltar para casa, deixando apenas um bilhete. Agora percebera porque sentia que algo mudaria. O socorro de Julichet mudaria totalmente sua vida de agora em diante. Teria que enfrentar as consequências de seus atos, fossem quais elas fossem.
E foi com a certeza de que enfrentaria essas consequências que ele resolveu ligar para Julichet. Estava preocupado com o estado de Ellie, e ainda não tinham sido publicadas notas sobre o assunto. Como tinha o telefone da casa dela anotado em sua agenda, foi necessário apenas atravessar a rua para ter acesso a um telefone e poder falar com ela.
O carro já tinha sido buscado por um guincho, e ninguém suspeitara que era ele quem tinha ajudado a primeira-dama.
Assim que Julichet atendeu, Vitor percebeu o risco que havia corrido. E se Giovane atendesse? Mas era Julichet do outro lado da linha. Certificou-se de que poderia conversar com ela, e começou a se desculpar, até que ela lhe deu um conselho: que ligasse para Miriam. Vitor logo desligou e resolveu seguir o conselho de Julichet, que, ele percebera agora, não o odiava tanto assim.
Assim que ouviu a voz de Miriam, lágrimas começaram a brotar nos olhos de Vitor. Aquela voz tão linda, que ele só podia ouvir por telefone agora. Ela não acreditou que era realmente ele, mas enfim percebeu que era verdade.
-Vitor! Por que você não me ligou antes? Você não faz ideia de como eu sofri nesses dias!
-Eu também sofri muito, Miriam. Não liguei porque estou sendo procurado e não posso ficar me arriscando. Mas não pense que não pensei em você a cada minuto nesses meses. Ficar tão longe, estando tão perto, me doeu muito nesses dias. Me perdoe, Miriam.
-Não precisa se desculpar, meu amor! Eu fiquei tão feliz quando Julichet me disse que você estava bem, uma notícia tão boa em tanto tempo. E agora, você me liga, só falta a gente se encontrar.
-Você sabe que não é tão simples, Miriam. Ainda estou sendo procurado pelo governo, e aparecer em público seria um risco muito grande. Mas se dependesse de mim, nos veríamos agora mesmo. - Vitor ja não conseguia conter as lágrimas, e Miriam percebeu.
-Vitor, você está chorando? Espere um pouco, terei que desligar, mas em dez minutos ligo de volta.
Vitor, contrariado, desligou o telefone. Por que Miriam tinha desligado? Será que alguém tinha ouvido a conversa? Mas ele já estava feliz por ter falado com ela, mesmo que a conversa tivesse sido curta. Todas as lembranças de seu namoro curto, seus erros, as festas que ele estragara, vieram à mente, e ele teve de chorar. Chorou por seus erros, por ter destruído sua relação com Miriam, por ter tido a péssima ideia de sequestrá-la. Nunca gostara de chorar, mas agora era necessário. Era necessário para se esvaziar de toda dor, de toda culpa que estava sentindo. As lágrimas pareciam deixá-lo mais leve.

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Enquanto falava com Vitor, Miriam pensava numa maneira de encontrá-lo. Nada que vinha à mente era viável, tudo apresentava muito risco. Mas ao ouvi-lo chorando, ela percebeu que precisava fazer alguma coisa. E precisava ser naquele momento, porque se pensasse demais, desistiria.
Julichet estava em casa, como era esperado. Ellie estava em um de seus momentos raros de sono, então Miriam pôde conversar com a irmã tranquilamente.
-Eu não posso te levar lá, Miriam. Onde vou deixar minha filha?
-Mas eu não estou te pedindo para me levar lá, estou te pedindo o endereço. Só isso.
-Não lembro exatamente a rua, mas me lembro de ter visto uma fábrica de eletrodomésticos no fim da rua. Talvez com isso você consiga o endereço completo.
-Isso já me ajuda muito, Ju! Muito obrigada! E mais uma coisa: não conte a ninguém que eu vim aqui, nem onde eu estou indo, por favor.
-Não contarei a ninguém se você voltar antes da meia noite. 
-Combinado, então.
Pesquisando pela fábrica, Miriam encontrou o nome da rua e imprimiu um mapa que a levaria até lá. Decidiu então usar ônibus para que ninguém a seguisse ou visse, e desceu várias ruas antes para se certificar de não estar sendo observada.
Quando chegou à rua indicada pelo mapa, logo viu a fábrica no final, e começou a se perguntar o que estava fazendo ali. Eram três horas da tarde, ela estava numa rua estranha, atrás de seu namorado foragido da polícia por sequestrá-la, mas não tinha ideia de qual fosse sua casa. 
Viu então o único carro da rua e resolveu perguntar a quem estivesse na rua se alguma casa estava abandonada. Imaginou que seria numa dessas que Vitor se esconderia. A mulher atendeu a campainha rapidamente e se assustou ao ver Miriam.
-Boa tarde, meu nome é Miriam, e eu gostaria de saber se há alguma casa abandonada aqui na sua rua.
-Boa tarde. Eu sei quem você procura, ele acabou de sair daqui, e se você quiser encontrá-lo, é só atravessar a rua. Boa sorte. - e fechou o portão. De onde aquela mulher conhecia Vitor? Mesmo achando tudo aquilo muito estranho, Miriam resolveu seguir o que a mulher dissera. Atravessou a rua e precisou bater na porta meia dúzia de vezes para ser atendida.

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Alguém estava batendo à sua porta, e Vitor imaginava quem poderia ser. Esperara na casa de sua prima por um tempo, mas Miriam não ligara. E agora alguém estava à sua porta. A pessoa era muito insistente, bateu várias vezes.
-Já vou! Quem é? - não estava com o mínimo ânimo para visitas, até porque ninguém o visitava. 
Diante de um silêncio vindo do lado de fora, decidiu abrir a porta e ver se a pessoa já havia ido embora.
Mas o que ele nunca imaginou era ver Miriam ali, com os olhos marejados, olhando fixamente para seu rosto.

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Rever Vitor era algo com o qual Miriam sonhara várias vezes, mas a realidade era muito melhor do que os sonhos. Vê-lo ali, em sua frente, era algo que ela nunca pensou que aconteceria novamente. E a única coisa que pôde fazer foi abraçá-lo. Porque não tinha vontade de soltá-lo nunca.
Nenhum dos dois tinha forças para dizer uma só palavra, então eles ficaram ali, abraçados, por um longo tempo. Vitor então quebrou o silêncio e convidou Miriam para entrar e sentar-se no sofá. 
-Então é aqui que você se esconde?
-Parece que essa história de me esconder não deu muito certo, mas sim, é aqui que me escondo. Por quê?
-Por nada, só achei a decoração um pouco antiga.
-E a senhorita acha que poderia me ajudar a redecorar tudo? - um sorriso divertido estampava a face de Vitor pela primeira vez em meses.
-Se eu não for obrigada a ficar longe de você por mais vários meses, te ajudo com o que quiser.
-Você sabe que eu não posso prometer nada, Miriam. Mesmo que eu tenha me arrependido e você esteja a meu favor, o que eu fiz é crime. Sequestrar alguém não é algo que possa ser simplesmente esquecido pela justiça. Até eu sei que minha prisão seria mais que justa.
-Não foi isso que eu quis dizer. Sei que não é justo manter um criminoso em liberdade, principalmente num país em que tudo está mudando para melhor, mas quando as consequências se aplicam a quem nós amamos, elas geralmente parecem pesadas demais. Ainda não sei o que pensar em relação à sua condenação.
-Você fala como se eu fosse me entregar. - o sorriso de Vitor sugeria algo parecido com tristeza, mas Miriam não soube decifrá-lo no escuro da sala de estar.
-E você não vai? - é claro que não, pensou ela.
-Bem, não estava nos meus planos atuais. Já pensei nessa possibilidade, mas agora, com você aqui, tudo o que quero é permanecer ao seu lado. Depois eu penso no resto.
Miriam se aproximou de Vitor no sofá. Eles nunca tinham sido pessoas muito românticas, mas agora ela sentia como se precisasse estar sempre perto dele, para que não se afastassem mais. 
-Mas você sabe que não vamos poder viver como num conto de fadas para sempre não é? Esses minutos que eu estou aqui já são muito arriscados.
-Alguém sabe que você veio? - Vitor pareceu de repente lembrar-se do fato que Miriam não tinha "autorização" para estar ali.
-Apenas Julichet. Afinal, foi ela que me disse onde você estaria. E alguém precisava saber onde eu estava no caso de eu me perder.
-Você realmente confia nela.
-Por que não confiaria? Além de minha irmã, Julichet é minha melhor amiga, e fiel àqueles que ama. - Miriam olhou nos olhos de Vitor e prosseguiu - Ela nos ajudou muito mais do que qualquer outra pessoa, mesmo não aprovando nosso relacionamento no início.
-Ás vezes me esqueço das coisas que aconteceram antes da minha fuga. Dos meus erros. - Vitor retribuiu o olhar de Miriam - Como você pôde me perdoar por tudo?
-Acho que já conversamos o suficiente sobre isso. Não é um assunto de que eu goste bastante. E sua carta ao meu pai me mostrou que você não quis apenas se acertar comigo, mas com ele também.
-Você ficou sabendo?
-Na verdade, todos ficaram. Meu pai ficou um bom tempo procurando por você ou pela mulher que havia deixado o envelope, mas nunca encontrou nenhum dos dois. Por acaso foi sua vizinha que fez papel de correio?
-Sim, foi ela. Você a conheceu?
-Na verdade, como a casa dela é a única com um carro por aqui, foi lá que procurei por informações. E ela logo me disse que você estaria aqui. Acho que você deve tomar mais cuidado com o que ela diz, Vitor.
-Em um caso especial como esse, ela sabe que eu gostaria que contasse todos meus segredos.
-Então meu caso é especial?
-Tudo sobre você é especial, Miriam. - enquanto dizia essas palavras, Vitor se aproximava de Miriam, e quando seus lábios se tocaram, pela primeira vez em meses, eles perceberam a verdade naquelas palavras. Mesmo que tudo estivesse fora do lugar, aquele momento parecia correto.



5 comentários:

  1. QUE DIVOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO

    ESCRITORA *-*

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  2. Nossa Milena, esqueci de comentar, mas é muito perfeito carambaaaaa!!! Parabééééns!!

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  3. Nossa parabéns,perfeito

    caandydream.blogspot.com

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  4. Ótimo! Amei mesmo, de verdade, está ótimo! Você tem muito talento como escritora, viu? Parabéns!!!!!!!

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  5. Olá!

    Eu realmente amei a sua historia, tanto que, inspiradaem vc, eu quero abrir uma "biblioteca" de historias virtuais como a sua, para que os leitores tenham uma visao mais ampla do bloggeiros escritores? o que vc acha?

    http://book-teen.blogspot.com.br/

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